Categoria: Meio Ambiente

  • Desmatamento da Mata Atlântica tem queda de 28% em um ano

    Desmatamento da Mata Atlântica tem queda de 28% em um ano

    Desmatamento da Mata Atlântica tem queda de 28% em um ano

    A área de desmatamento na Mata Atlântica registrou queda de 28% em 2025, na comparação com os monitoramentos realizados em 2024, passando de 53.303 há dois anos, para 38.385 hectares (ha) no ano passado. 

    Este é o menor nível da série histórica e confirma a trajetória de desaceleração no desmatamento do bioma, segundo avaliação da Fundação SOS Mata Atlântica.

    A entidade divulgou nesta quarta-feira (13) os resultados do Sistema de Alertas de Desmatamento (SAD) Mata Atlântica, que realiza em parceria com a MapBiomas e Arcplan, desde 2022.

    De acordo com o SAD, houve redução das derrubadas em 11 dos 17 estados do bioma, com destaque para Bahia e Piauí. No entanto, ambos ainda aparecem entre os maiores responsáveis pela perda florestal em 2025: Bahia (17.635 ha), Minas Gerais (10.228 ha), Piaui (4.389 ha) e Mato Grosso do Sul (1.962 ha). Esses quatro estados concentraram 89% da área total desmatada.

    Nos demais estados, as perdas ficaram abaixo de 1 mil hectares:

    “Quase toda a destruição registrada pelo sistema (96%) foi convertida para uso agropecuário, grande parte com indício de ilegalidade”, destacou a SOS Mata Atlântica.

    Atlas

    Já o Atlas dos Remanescentes Florestais da Mala Atlântica indicou a mesma tendência, com um dado ainda mais expressivo: houve redução de 40% no desmatamento, que passou de 14.366 ha em 2024 para 8.668 ha em 2025.

    O Atlas é realizado em parceria da Fundação SOS Mata Atlântica com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que desde 1985 monitora os grandes fragmentos de florestas maduras do bioma. Em 40 anos de monitoramento, a entidade informou que esta é a primeira vez que o desmatamento anual ficou abaixo de 10 mil hectares.

    De acordo com a SOS Mata Atlântica, os resultados refletem ações como pressão pública, mobilização da sociedade, políticas ambientais e fiscalização.

    Entre elas, estão a Operação Mata Atlântica em Pé, a aplicação de embargos remotos e a restrição de crédito a áreas desmatadas ilegalmente, além da afirmação da Lei da Mata Atlântica como principal instrumento de proteção da vegetação nativa do bioma.

    Risco concreto

    Apesar da queda anual de área desmatada, Luis Fernando Guedes Pinto, diretor executivo da SOS Mata Atlântica, alerta para a necessidade de manter a vigilância sobre o bioma:

    “O desmatamento continua acontecendo e, na Mata Atlântica, cada fragmento perdido faz diferença. O desafio é manter essa trajetória até zerarmos o desmatamento.”

    Ele apontou que há um risco concreto ao bioma em discussão no âmbito do Legislativo. Isso porque, em 2025, o Congresso Nacional aprovou a Lei Geral do Licenciamento Ambiental e a Lei da Licença Ambiental Especial.

    A SOS Mata Atlântica avalia que essas leis enfraquecem mecanismos de controle do desmatamento justamente quando eles demonstram resultados concretos:

    “É uma distorção que leva o Brasil na contramão do Acordo de Paris e potencializa tragédias climáticas. Os números apontam que o desmatamento cai quando a lei é aplicada com rigor e critérios técnicos. Enfraquecer os instrumentos de proteção agora é arriscar o que levamos anos construindo”, disse Malu Ribeiro, diretora de políticas públicas da SOS Mata Atlântica.

  • Governo vai monitorar presença de agrotóxico em bacias hidrográficas

    Governo vai monitorar presença de agrotóxico em bacias hidrográficas

    Governo vai monitorar presença de agrotóxico em bacias hidrográficas

    O governo federal lançou hoje (11) um painel de monitoramento de agrotóxicos nos recursos hídricos, com dados coletados nas diversas bacias hidrográficas do país, para identificar e mostrar o grau de presença desses pesticidas na vida aquática. 

    Entre outras informações, o painel mostra a quantidade de pontos de monitoramento distribuídos em todos os estados brasileiros, o número de agrotóxicos rastreados, percentuais de detecção e outros detalhes.

    Segundo o governo federal, o objetivo é ampliar a transparência e o acesso à informação, fortalecer o debate e auxiliar na construção de políticas públicas, além de identificar riscos e orientar ações preventivas.

    Durante o lançamento, o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco destacou que os agrotóxicos representam um dos grandes desafios ambientais e sanitários do mundo, impactando organismos aquáticos, polinizadores, o solo e os seres humanos, especialmente quando há uso inadequado, excesso de aplicação ou persistência ambiental das substâncias.

    “Esse é um tema que nós temos que trabalhar com muita responsabilidade, por que o Brasil é uma potência agrícola global, mas sabemos que, no século XXI, a competitividade e sustentabilidade não podem mais caminhar separadas. Produzir alimentos exige também proteger as águas, bioinsumos, os territórios e a saúde humana”, afirmou.

    Pronara

    A ferramenta foi desenvolvida no âmbito do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara) pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), tendo como base o monitoramento realizado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

    “Após mais de uma década de mobilização de pesquisadores, movimentos sociais, órgãos e setores comprometidos com a transição ecológica da agricultura, o Pronara recoloca o Brasil em uma trajetória estratégica para redução de risco e fortalecimento da agroecologia que deixou de ser uma coisa de bicho grilo e passou a ser uma coisa amplamente comprovada de sucesso e de bons resultados e promoção de sistemas produtivos mais sustentáveis”, defendeu.

    Capobianco disse ainda que a ferramenta está em uma fase inicial. Atualmente, 49 tipos de agrotóxicos são monitorados, mas esse número deve crescer.

    O ministro afirmou que a ferramenta também traz informações sobre a representatividade agrícola, o uso predominante da terra e a vulnerabilidade ambiental das bacias hidrográficas monitoradas. 

    “É importante destacar que estamos diante de iniciativa ainda em fase inicial de consolidação. O painel representa um primeiro esforço estrutural do governo federal para entregar e dar transparência aos dados nacionais de monitoramento ambiental de agrotóxicos, sua importância crescerá progressivamente à medida que ampliarmos a cobertura territorial”, disse.

    Os dados iniciais do painel mostram que foram realizadas mais de 10 mil análises de agrotóxicos, com uma frequência de detecção de 7,2%. O S-Metolacloro foi o agrotóxico que mais apareceu, tendo sido observado em 69,48%.

    O ministro frisou ainda que antes do painel, o cenário era de fragmentação de informações a respeito do monitoramento de agrotóxicos e que isso dificultava a tomada de decisão por parte de gestores e agentes públicos.

    “Os dados existiam, mas estavam dispersos, dificultando a análise integrada e a formulação de políticas públicas consistentes”, lembrou.

    “Estamos agora oferecendo à sociedade brasileira uma plataforma pública de transparência e inteligência ambiental que permitirá acompanhar tendências, identificar riscos, orientar ações preventivas e corretivas”, ressaltou.

  • Fragmentos de vegetação nativa cresceram no país 163% em 38 anos

    Fragmentos de vegetação nativa cresceram no país 163% em 38 anos

    Fragmentos de vegetação nativa cresceram no país 163% em 38 anos

    As porções isoladas de vegetação nativa cresceram de 2,7 milhões, em 1986, para 7,1 milhões, em 2023, em todo o país, conclui um novo estudo do Mapbiomas divulgado nesta quarta-feira (13).

    O aumento de 163%, em 38 anos, demonstra como o desmatamento no Brasil transformou grandes extensões contínuas de cobertura verde em pequenos fragmentos remanescentes.

    Os dados são do Módulo de Degradação, uma plataforma desenvolvida pelo MapBiomas, que permite a análise, integração de dados e monitoramento das transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil. Pela primeira vez, a fragmentação – processo de divisão de grandes extensões de vegetação nativa – foi analisada.

    Além do aumento na quantidade, os pesquisadores também constataram a diminuição do tamanho dos fragmentos. Enquanto no início da série histórica a média de tamanho dos fragmentos era de 241 hectares, em 2023 eles encolheram para um tamanho médio de apenas 77 hectares.

    Segundo o pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Dhemerson Conciani, que coordena o Módulo de Degradação, os dados preocupam porque o tamanho dos fragmentos de vegetação nativa tem relação direta com a quantidade e variedade da fauna e da flora presente.

    “Cada vez que diminui o tamanho de um fragmento de vegetação nativa, mais problemas aparecem: aumenta o risco de extinções locais das espécies, diminui a chance de recolonização por indivíduos vindos de outros fragmentos vizinhos e maior é a proporção do efeito de borda [perda de características naturais mais presentes nas margens próximas às áreas degradas]”, analisa Conciani.

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    Biomas

    De acordo com o estudo, quase 5% da vegetação nativa do Brasil, o equivalente a 26,7 milhões de hectares, está em fragmentos menores que 250 hectares. E as pequenas porções isoladas estão mais presentes na Mata Atlântica, onde elas respondem por quase 28% da vegetação nativa remanescente – ou 10 milhões de hectares.

    Em quantidade absoluta de fragmentos, a Mata Atlântica e o Cerrado são os que mais possuem porções isoladas de vegetação nativa, sendo 2,7 milhões em cada bioma. Para Natalia Crusco, coordenadora técnica de Mata Atlântica no MapBiomas, o avanço da fragmentação nos dois biomas ocorre por razões diferentes.

    “Enquanto no Cerrado o aumento no número de fragmentos está associado ao avanço do desmatamento e à divisão de grandes remanescentes de vegetação nativa em áreas menores; na Mata Atlântica, parte desse aumento também pode ser explicada por um processo no sentido oposto ao desmatamento, ou seja, pelo surgimento de múltiplas áreas de recuperação da vegetação secundária”.

    Nos biomas Amazônia, Caatinga, Pampa e Pantanal o número de fragmentos foi de respectivamente quase 662 mil, 600 mil, 324 mil e 45 mil, em 2023.

    Ao longo dos 38 anos observados, Pantanal e a Amazônia foram os que sofreram mais fragmentação, com aumento de 350% e 332%, respectivamente. No Pampa, o número de porções isoladas cresceu 285% e no Cerrado aumentou 172%.

    Caatinga e Mata Atlântica variaram menos, mas ainda tiveram aumento de fragmentação de suas vegetações com crescimentos de 90% e 68%, respectivamente.

    Em redução de fragmentos, a Amazônia foi a mais impactada. As porções de vegetação nativa no bioma encolheram 82% ao longo do período estudado.

    Enquanto em 1986, a média de tamanho dos fragmentos era de 2.727 hectares; em 2023, essa média caiu para 492 hectares.

    Novidade

    Os dados trazidos pelo Módulo de Degradação permitiram uma nova análise aos pesquisadores: a identificação de distúrbios no dossel de formações florestais – cobertura formada pelas copas das árvores mais altas – em toda a Amazônia Legal.

    Entre 1988 e 2024, foi detectado algum sinal de distúrbio, ao longo de, pelo menos, um mês, em 24,9 milhões de hectares, área equivalente a 7% da cobertura de floresta na Amazônia Legal. Na prática, são clareiras resultantes de secas, ventos, incêndios, corte seletivo de madeira, efeito de borda ou outras perturbações.

    Segundo os pesquisadores, o corte seletivo de madeira é uma das principais causas de distúrbio de dossel na Amazônia Legal. Durante o período estudado, foram identificados 9,7 milhões de hectares com indícios de corte seletivo.

    Degradação

    Fatores como fragmentação, efeito de borda, fogo e corte seletivo nem sempre resultam em desmatamento com a terra exposta, mas degradam os biomas. O detalhamento da plataforma do Mapbiomas aponta que 24% de toda a vegetação nativa remanescente do Brasil está exposta a pelo menos um vetor de degradação, uma área equivalente a 134 milhões de hectares.

    Segundo Dhemerson Conciani, o maior entendimento desses dados fortalece a formulação e implementação de políticas públicas para redução das emissões de gases do efeito estufa provenientes do desmatamento e da degradação.

    “Ao detectar a degradação de forma precoce é possível reverter esse processo e estabelecer áreas prioritárias para recuperação da vegetação nativa e consequente conservação das funções e serviços ambientais de ecossistemas”, conclui o pesquisador.

  • Em registro raro, onça-pintada é filmada no oeste da Bahia

    Em registro raro, onça-pintada é filmada no oeste da Bahia

    Em registro raro, onça-pintada é filmada no oeste da Bahia

    Um registro cada vez mais raro foi possível pelas câmeras de monitoramento no extremo oeste baiano. Trata-se de uma onça-pintada melânica, condição rara que deixa os pelos do animal com coloração escura. 

    A ocorrência é considerada excepcional, já que registros documentados desse tipo são extremamente incomuns no oeste da Bahia.

    O registro foi feito em uma área de vegetação nativa da região, em uma propriedade particular.

    Até então, o caso mais próximo havia sido identificado no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, na região de Cocos, na Bahia, em agosto de 2025, com uma ninhada rara de trigêmeos de onça-pintada.

    O monitoramento foi feito pelo parque Vida Cerrado, por meio de armadilhas fotográficas (câmeras trap), tecnologia amplamente utilizada em estudos de fauna para monitorar a presença e o comportamento de animais de forma não invasiva.

    A instituição é o primeiro centro de conservação e educação socioambiental do oeste da Bahia.

    O Parque Vida Cerrado esclareceu que, por questões de segurança, a localização exata do registro não será divulgada.

    A gerente da instituição Gabrielle Rosa disse que avistamentos de onças têm ficado mais raros e que o caso do registro obtido é ainda mais difícil devido à condição do animal, também conhecido como pantera negra.

    “O registro de uma onça-pintada melânica é extremamente relevante porque reforça que ainda existem áreas com condições adequadas para a sobrevivência de espécies sensíveis. Estamos falando de um animal no topo da cadeia alimentar, que precisa de grandes áreas conservadas para viver, e sua presença é um indicativo claro de equilíbrio ambiental”, explicou.

    Além de ameaçada pela perda de habitat, a onça-pintada também enfrenta desafios relacionados à caça ilegal e ao preconceito histórico, frequentemente associado à presença do animal em áreas produtivas.

    Segundo Gabrielle, o registro mostra a necessidade da conservação de trechos contínuos no Cerrado para a sobrevivência de diversas espécies da fauna, especialmente da vegetação nativa em regiões agrícolas.

    Especialistas reforçam que a conservação de grandes predadores está diretamente ligada à manutenção de áreas naturais contínuas e à coexistência entre produção rural e biodiversidade.

    “Ainda existe muito desconhecimento e até preconceito em relação à onça-pintada. É fundamental avançar em estratégias de convivência, mostrando que a conservação da espécie também traz benefícios para todo o ecossistema”, disse.

    Para o Vida Cerrado, o episódio reforça a importância de estratégias que conciliem produção rural e conservação, além de ampliar o debate sobre a redução de conflitos entre humanos e fauna silvestre.

  • Camarão gigante invasor avança sobre áreas protegidas no Brasil

    Camarão gigante invasor avança sobre áreas protegidas no Brasil

    Camarão gigante invasor avança sobre áreas protegidas no Brasil

    A presença sorrateira e cada vez mais persistente de uma espécie exótica nos ecossistemas costeiros do Brasil vem acendendo inúmeros alertas entre cientistas, pescadores e gestores ambientais: trata-se do camarão-gigante-da-malásia (Macrobrachium rosenbergii).

    Introduzido no país no final do século 20 para abastecer o crescente setor de aquicultura, o animal não se limita mais à criação em cativeiro. Com o tempo, a espécie se estabeleceu em ambientes naturais extremamente sensíveis, incluindo áreas protegidas.

    Um estudo realizado por pesquisadores do Brasil e do Uruguai, publicado em fevereiro, revelou a dimensão do problema e esmiuçou os riscos ecológicos e ambientais associados à “invasão” do camarão gigante — aspectos negativos que, segundo os especialistas, podem se intensificar nos próximos anos.

    Liderada pelo oceanógrafo Edison Barbieri, diretor do Núcleo Regional de Pesquisa do Litoral Sul, do Instituto de Pesca de São Paulo, a pesquisa foi motivada pela preocupação crescente da comunidade científica diante das invasões biológicas em ecossistemas estuarinos. Esses sistemas, que também incluem os manguezais, estão localizados em áreas de transição entre rios e o oceano e são amplamente reconhecidos por sua biodiversidade.

    As zonas estuarinas servem como berçários para inúmeras espécies aquáticas, incluindo peixes e crustáceos cuja importância ecológica se soma ao seu potencial econômico. Ao mesmo tempo, esses ambientes transicionais delicados são suscetíveis à introdução de espécies exóticas, que passam a competir com a fauna nativa por diferentes recursos vitais.

    Segundo Barbieri, o estudo — conduzido entre 2015 e 2025 — partiu de uma constatação: ainda que o camarão intruso tivesse sido registrado em diferentes regiões do Brasil, não havia monitoramento sistemático em áreas de conservação. “A introdução acidental ou intencional de espécies por meio da aquicultura já havia sido observada, mas não sabíamos até que ponto isso afetava as unidades de conservação costeiras.”

    Assim, o trabalho reuniu uma equipe multidisciplinar e combinou diferentes metodologias para mapear a ocorrência da espécie, avaliar sua distribuição e, principalmente, identificar seu potencial de impacto na fauna nativa. “Para isso, utilizamos quatro abordagens principais: amostragem de campo, monitoramento participativo com pescadores artesanais, consulta a bancos de dados e revisão da literatura científica”, disse Barbieri à Mongabay.

    Os esforços foram concentrados no Complexo Estuarino-Lagunar de Cananéia-Iguape-Ilha Comprida, no extremo sul do estado de São Paulo. A área litorânea é reconhecida pela Unesco como parte da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica e como Patrimônio Mundial Natural, abrangendo pontos importantes — como a Área de Proteção Ambiental (APA) Ilha Comprida, que abriga mata de restinga, dunas, praias e manguezais.

    A relevância do complexo ambiental também foi reconhecida pela Convenção de Ramsar, no Irã, em 1971. Segundo o governo brasileiro, esse tratado intergovernamental “estabelece marcos para ações nacionais e para a cooperação entre países com o objetivo de promover a conservação e o uso racional de áreas úmidas no mundo”.

    Conforme explicou Barbieri, a presença da espécie exótica no biodiverso litoral paulista é significativa e resultou em dados expressivos. “Entre 2015 e 2025, acompanhamos a presença do camarão invasor no local, contando com a colaboração ativa de pescadores da região. Ao todo, registramos 68 ocorrências únicas de M. rosenbergii em 10 áreas protegidas ao longo da costa brasileira.”

    A maioria desses registros (44) ocorreu em APAs, onde o uso sustentável dos recursos naturais é permitido. No entanto, alguns trechos dessas mesmas áreas são pontos ambientais que exigem proteção absoluta, o que aumenta os riscos associados à presença do longilíneo camarão forasteiro. “No estuário da Cananéia, por exemplo, foram capturados 90 indivíduos ao longo de uma década de monitoramento”, disse o pesquisador.

    Um invasor que se sente em casa

    A fácil reprodução da espécie em ambiente natural é, por si só, mais preocupante do que sua presença na costa brasileira. A pesquisa sustentou esse indicativo ao identificar fêmeas ovígeras — que carregam ovos fertilizados —, o que provou a ocorrência do ciclo reprodutivo no ecossistema. Segundo Barbieri, “isso indica que a espécie não apenas sobrevive, mas [que] está efetivamente estabelecida”.

    Outro dado considerado relevante é o padrão sazonal observado nas capturas. A maior incidência de camarões invasores ocorre nos meses mais quentes, especialmente entre a primavera e o verão do Brasil. Isso sugere uma relação direta entre a ocorrência dos crustáceos e a temperatura da água. Em um contexto de mudanças climáticas, que torna o aquecimento dos oceanos uma realidade global, as novas condições marinhas podem favorecer ainda mais a proliferação da espécie invasora.

    Ernesto Brugnoli Olivera, professor adjunto de Oceanografia e Ecologia Marinha da Universidad de la Republica (Uruguai) e um dos coautores do estudo, destaca outros atributos que facilitam uma jornada invasora “de sucesso” ao camarão: sua ampla tolerância térmica e sua plasticidade ecológica. “Trata-se de uma espécie altamente adaptável, capaz de sobreviver em diferentes condições de salinidade e temperatura, o que facilita sua dispersão em ambientes estuarinos e de água doce”, disse.

    A origem da invasão está diretamente ligada à atividade aquícola.

    Introduzido no Brasil na década de 1970 para o cultivo comercial, o camarão-da-malásia, como também é conhecido, passou a escapar dos viveiros e a colonizar ambientes naturais pouco a pouco. Hoje, sua distribuição já não encontra fronteiras: há registros da espécie tanto no Norte quanto no Sul do país.

    Os impactos são variados. Especialistas destacam a competição por alimento, abrigo e espaço entre o intruso e espécies nativas, como o camarão-da-amazônia (Macrobrachium amazonicum). A batalha travada por eles, segundo alerta a ciência, pode levar à redução das populações locais e à alteração estrutural das comunidades aquáticas.

    O mapa, disponível no estudo, mostra regiões de ocorrência do camarão invasor.

    Além disso, o camarão vindo de fora é considerado um vetor de patógenos, como a síndrome da mancha branca — um vírus perigoso que, em várias partes do mundo, já causou prejuízos significativos à carcinicultura, como é chamada a técnica de criação de camarões (marinhos ou de água doce) em viveiros.

    Caso esses animais se proliferem em ambientes naturais, doenças de difícil manejo podem provocar efeitos em cadeia na fauna de crustáceos.

    Os efeitos ecológicos também se estendem à cadeia alimentar: como predador oportunista, o M. rosenbergii pode alterar as relações tróficas nos ecossistemas estuarinos, afetando não apenas outros crustáceos, mas também peixes e organismos de menor tamanho. Futuramente, isso poderia resultar em um quadro de desequilíbrio ecossistêmico potencialmente irreversível.

    Impactos na atividade pesqueira

    Embora o estudo não tenha produzido informações consolidadas sobre os impactos socioeconômicos associados ao avanço do camarão, muitos pescadores já relatam uma série de mudanças em seu dia a dia de trabalho.

    É o caso de Nilson Monteiro do Nascimento, pescador há 40 anos no município de Curuçá, no litoral nordeste do Pará. Ele contou à Mongabay que tem observado uma transformação “preocupante”. Segundo Nilson, a presença de espécies invasoras, como o camarão-da-malásia e o camarão-tigre-gigante (Penaeus monodon), coincidiu com o desaparecimento de espécies regionais. “Hoje, para pegar 5 ou 10 quilos [de camarão nativo], é muito difícil. Antes, a gente trabalhava com toneladas por semana.”

    Nilson endossa a preocupação dos cientistas e destaca o comportamento predatório dessas espécies, que se alimentam não apenas de camarões comuns, mas também de outros organismos costeiros endêmicos. “A gente percebe que ele come os outros camarões, inclusive os das cabeceiras de água doce. Isso foi acabando com a nossa produção.”

    A escassez de camarões outrora abundantes na costa paraense afeta diretamente a renda das comunidades que dependem da pesca artesanal, levando muitos trabalhadores a buscar alternativas para se sustentar. “A gente está tendo que se reinventar”, lamentou Nilson.

    Na visão dos pesquisadores, o relato reforça a importância do monitoramento participativo adotado durante o estudo. Ao envolver pescadores no processo de coleta de dados, o trabalho ampliou sua base de informações e fortaleceu o diálogo entre a ciência e as comunidades locais.

    Segundo Barbieri, diante de queixas como essa, é necessário agir rápido: “É urgente a implementação de programas contínuos de monitoramento, a revisão dos critérios de licenciamento ambiental para empreendimentos aquícolas e a realização de estudos mais aprofundados sobre as interações entre espécies nativas e invasoras.”

    Os autores também pedem a criação de políticas públicas mais rigorosas, já que a presença do camarão invasor em áreas protegidas demonstra que as fronteiras legais não são suficientes para conter a ameaça. “Precisamos de vigilância reforçada e de medidas efetivas de controle. A invasão em Cananéia — um patrimônio natural — simboliza uma falha na prevenção e no controle de espécies exóticas associadas à aquicultura”, disseram.

    Ao trazer evidências concretas da presença e do estabelecimento da espécie nos biomas brasileiros, o estudo abre caminho para a tomada de decisões. Mas, como os próprios autores reforçaram em entrevista, o tempo é um fator crítico: quanto maior for o atraso na criação de medidas mitigadoras, maiores podem ser os custos ambientais, econômicos e sociais.

    Por Evanildo da Silveira via Mongabay

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