Categoria: Meio Ambiente

  • Relatório da ONU revela que oceanos estão mais elevados, aquecidos e poluídos

    Relatório da ONU revela que oceanos estão mais elevados, aquecidos e poluídos

    Relatório da ONU revela que oceanos estão mais elevados, aquecidos e poluídos

    A saúde dos mares está piorando de forma alarmante, de acordo com a Terceira Avaliação Global dos Oceanos, WOA-3, divulgada pela ONU nesta segunda-feira, por ocasião do Dia Mundial dos Oceanos.

    O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, ressaltou que os mares estão em apuros e fez um apelo à humanidade para não os tratar como um recurso ilimitado.

    Taxa de aumento do nível do mar foi a 50%

    O estudo tem 25 autores. A ONU News conversou com dois deles: o professor brasileiro Ronaldo Christofoletti e a pesquisadora portuguesa Maria João Bebianno.

    Christofoletti disse que as cidades costeiras sofrem ameaça cada vez mais grave, com impactos significativos para o Brasil, que tem mais de 8 mil km de litoral.

    “O que o relatório confirma? O aumento do nível do mar, a taxa com que ele cresce por ano aumentou mais de 50% desde o último relatório, há quatro anos. Ela era em torno de 3,2 milímetros por ano. Agora está confirmado em 4,3 milímetros por ano. É o quanto esse mar atingir, ele vai atingir onde? ele vai ter o seu impacto onde? Principalmente nas zonas costeiras. Então se a gente olha a nossa costa, todas as nossas cidades costeiras. Quantas capitais nós não temos nestes 17 Estados costeiros com grande quantidade de população? E ela vai ser impactada”.

    O especialista diz que novos recordes de degelo na região do Ártico, no Polo Norte, e da Antártica, no Polo Sul, jogam mais água nos mares e causam uma desregulação da relação do oceano com a atmosfera, alterando as frentes frias e o regime de chuvas no Brasil.

    Concentração de antibióticos no oceano

    Outra coautora do texto, a cientista Maria João Bebianno ressaltou o risco associado aos chamados “poluentes emergentes”, que vão muito além do lixo plástico visível.

    “Estamos a assistir a um aumento da concentração de antibióticos no oceano. Isto faz com que surjam espécies de bactérias e genes resistentes no mar, gerando uma situação muito semelhante à que enfrentamos hoje com as superinfecções nos hospitais. É alarmante. Precisamos de recuperar a saúde do oceano para, assim, recuperarmos a saúde humana.”

    O especialista diz que novos recordes de degelo na região do Ártico, no Polo Norte, e da Antártica, no Polo Sul, jogam mais água nos mares e causam uma desregulação da relação do oceano com a atmosfera, alterando as frentes frias e o regime de chuvas no Brasil.

    Concentração de antibióticos no oceano

    Outra coautora do texto, a cientista Maria João Bebianno ressaltou o risco associado aos chamados “poluentes emergentes”, que vão muito além do lixo plástico visível.

    “Estamos a assistir a um aumento da concentração de antibióticos no oceano. Isto faz com que surjam espécies de bactérias e genes resistentes no mar, gerando uma situação muito semelhante à que enfrentamos hoje com as superinfecções nos hospitais. É alarmante. Precisamos de recuperar a saúde do oceano para, assim, recuperarmos a saúde humana.”

  • Carbono azul ganha espaço na agenda climática dos oceanos

    Carbono azul ganha espaço na agenda climática dos oceanos

    Carbono azul ganha espaço na agenda climática dos oceanos

    Na corrida para frear as emissões causadoras do aquecimento global, ambientalistas chamam a atenção para um aliado pouco lembrado: o “carbono azul”. No Dia Mundial dos Oceanos, celebrado nesta segunda-feira (8), especialistas destacam o papel dos ecossistemas costeiros no enfrentamento das mudanças climáticas.

    O conceito de carbono azul se refere ao dióxido de carbono (CO₂) capturado e armazenado por ambientes marinhos, como manguezais, marismas (pântanos de água salgada) e pradarias. Esses ambientes funcionam como sumidouros do gás carbônico, ao retirá-lo da atmosfera, reduzindo os impactos do aquecimento global.

    “O oceano absorve cerca de 30% das emissões globais de CO₂ e produz mais da metade do oxigênio que respiramos, de acordo com dados da SOS Oceano”, diz Natali Piccolo, diretora do Programa Costeiro Marinho da Conservação Internacional (CI-Brasil).

    “A Amazônia é comumente chamada de ‘pulmão do mundo’, mas o oceano cumpre o equivalente a esse papel. O que não descarta, claro, a importância da floresta tropical na regulação do clima”, completa.

    Além disso, essas vegetações costeiras fornecem abrigo para a biodiversidade, sustentam a pesca artesanal e ajudam a proteger comunidades costeiras contra erosão, ressacas e eventos climáticos extremos.

    Costa brasileira

    O Brasil abriga o maior sistema contínuo de manguezais do mundo, na costa da Amazônia, condição que coloca o país em posição estratégica para liderar soluções baseadas na natureza voltadas ao enfrentamento da crise climática.

    Porém, para a analista de conservação do WWF-Brasil, Marina Corrêa, o oceano recebe menos atenção do que outros biomas brasileiros.

    “O mar ainda é, em muitos aspectos, o sistema invisível da conservação brasileira. Historicamente, o oceano foi tratado como uma imensidão azul vazia, quando na verdade é um território vivo, cheio de biodiversidade, cultura, trabalho e modos de vida”, diz a analista.

    Ela lembra que o Sistema Marinho-Costeiro brasileiro ocupa cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados, equivalente a aproximadamente 40% do território nacional, e que mais da metade da população vive nesse ecossistema. Ainda assim, Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica concentram a maior parte da atenção pública, política e financeira voltada à conservação.

    Povos tradicionais

    O crescimento do interesse por projetos de carbono azul também tem levantado discussões sobre direitos territoriais e participação das comunidades tradicionais. Para a analista da WWF-Brasil, resultados duradouros dependem do respeito aos direitos territoriais e repartição justa dos benefícios gerados.

    “O sucesso dessas iniciativas não deve ser medido apenas pela quantidade de carbono armazenado, mas também pela capacidade de fortalecer territórios, conservar a biodiversidade e melhorar a qualidade de vida das pessoas que historicamente cuidam desses ecossistemas”, diz Marina Corrêa.

    Quando degradados, esses ambientes deixam de oferecer serviços essenciais, como a manutenção dos estoques pesqueiros, a proteção natural da costa e a conservação da biodiversidade.

    A destruição desses ecossistemas também pode liberar para a atmosfera o carbono acumulado ao longo de décadas ou séculos, agravando o aquecimento global.

    Além do carbono

    Para organizações ambientais, proteger os oceanos significa também proteger empregos, segurança alimentar, culturas tradicionais e formas de subsistência construídas ao longo de gerações.

    “Globalmente, a maior renda do oceano é gerada pela pesca, que sustenta 100 milhões de empregos e produz 80 milhões de toneladas de pescado marinho, além de 30 milhões de toneladas da aquicultura marinha, o que sustenta a segurança alimentar de milhares de pessoas, por fornecer proteína de alta qualidade”, diz Natali Piccolo.

    No Brasil, cerca de 1,7 milhão de pescadores artesanais dependem diretamente da saúde dos ecossistemas marinhos, segundo o Registro Geral da Atividade Pesqueira, do Ministério da Pesca e Aquicultura.

    Nesse sentido, o trabalho conjunto de instituições públicas com organizações da sociedade civil é essencial para garantir um futuro mais promissor para os oceanos.

    “Nossa atuação é sistêmica, para preencher as lacunas da proteção, manejo e restauração dos ecossistemas marinhos (manguezais, recifes de corais, restingas), enquanto ajudamos os povos do mar a prosperarem, bem como a sociedade brasileira a desenvolver o conhecimento e a experiência do oceano”, diz Natali Piccolo, da CI-Brasil.

    Marina Corrêa, da WWF Brasil, explica que a estratégia da organização para os próximos anos está organizada em quatro grandes frentes: fortalecimento das áreas marinhas protegidas, conservação e restauração de recifes de coral (ecossistema mais vulnerável às mudanças climáticas), promoção de uma transição energética justa e incidência política para fortalecer a governança dos oceanos no Brasil e internacionalmente.

  • Sem-terra plantam 5 mil mudas na semana do Meio Ambiente

    Sem-terra plantam 5 mil mudas na semana do Meio Ambiente

    Sem-terra plantam 5 mil mudas na semana do Meio Ambiente

    O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) mobilizou, nos últimos dias, cerca de 10 mil pessoas, em 15 estados brasileiros, onde realizou uma série de atividades de defesa do meio ambiente, com críticas ao agronegócio.

    Segundo a organização, os sem-terra plantaram mais de 5 mil mudas e semearam cerca de 30 toneladas de sementes em Alagoas, Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, São Paulo e Sergipe.

    A iniciativa faz parte da Jornada Nacional em Defesa da Natureza e seus Povos, que começou na última segunda-feira (1°) e termina neste domingo (7), marcando a Semana Mundial do Meio Ambiente.

    Este ano, a jornada teve como lema o mote “combater o agronegócio é cuidar da natureza!” e serve como plataforma para o MST defender a reforma agrária “como solução para o avanço dos cuidados com o meio ambiente”.

    Ao mesmo tempo, a organização denuncia o que classifica como “crimes ambientais do agro-hidro-minero-negócio” e os “que exploram os bens comuns da natureza em larga escala”, em um momento em que, na avaliação do movimento, “o agronegócio aprova leis que aumentam a destruição ambiental”.

    Incinerador

    Neste sábado (6), em São Paulo, o MST promoveu um ato contra a instalação de um incinerador no bairro de Perus, na zona noroeste da capital paulista. Além dos sem-terra, a manifestação reuniu moradores da região, ambientalistas e integrantes de outras organizações sociais.

    O incinerador integra o chamado EcoParque Bandeirantes, que a prefeitura de São Paulo pretende instalar no antigo Aterro Sanitário Bandeirantes, em parceria com uma empresa privada.

    O aterro funcionou por 28 anos e teve suas operações encerradas em 2007. Desde então, consta da lista de Áreas Contaminadas em Processo de Remediação (ACRe), da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

    Além do incinerador, o projeto do EcoParque prevê um biodigestor, uma unidade de compostagem, outra de biossecagem, e uma central mecanizada de triagem de resíduos. E, segundo a prefeitura, visa a “otimização da reciclagem dos resíduos sólidos urbanos, a agregação de valor aos diversos subprodutos gerados, a geração de energia com baixa emissão de GEE e a redução dos volumes destinados à disposição final em aterros.

    No entanto, de acordo com o MST, o projeto contraria os interesses de diferentes segmentos sociais que coabitam o bairro de Perus e região, incluindo indígenas que vivem no Pico do Jaraguá, próximo ao antigo aterro sanitário.

    “O projeto de instalação do Incinerador em Perus mostra qual é o projeto da burguesia e do agronegócio para o Brasil: para a periferia, para o povo pobre, para os camponeses, para a classe trabalhadora é sempre a poluição, os detritos. Para deixar bonita a área da burguesia, empurram para nós os detritos”, criticou, em nota, Luciano Carvalho, da direção estadual do movimento.

  • Contaminação por mercúrio coloca gestantes e bebês Munduruku em risco

    Contaminação por mercúrio coloca gestantes e bebês Munduruku em risco

    Contaminação por mercúrio coloca gestantes e bebês Munduruku em risco

    Mulheres gestantes da Terra Indígena Munduruku, na região do Médio Tapajós, no Pará, têm mercúrio no corpo em níveis quatro vezes e meio acima do limite seguro estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Nenhum organismo deveria possuir mais do que 2 microgramas do metal para cada grama de cabelo (µg/g). Os níveis encontrados nelas são, em média, de 9,1 µg/g.

    Os dados fazem parte do resultado preliminar do Estudo Longitudinal de Gestantes e Recém-Nascidos Indígenas Expostos ao Mercúrio na Amazônia, realizado por pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz).

    Os números foram apresentados nesta quarta-feira (3) pelo coordenador da pesquisa Paulo Basta, durante a Rio Nature & Climate Week, a semana do clima do Rio de Janeiro.

    Das 195 mulheres monitoradas, 97% têm mercúrio no corpo acima do nível seguro. No caso mais extremo, uma delas apresentou 39,9 µg/g do metal, 20 vezes acima do tolerável.

    Deste total, 134 mulheres já deram à luz. Os bebês também são acompanhados pelos pesquisadores. Cerca de 90% deles já nascem contaminados pelo mercúrio. O metal passa da mãe para a criança pela placenta.

    Os bebês têm em média concentrações de 5,8 µg/g, três vezes acima do limite. Em um caso extremo, um deles apresentou 30,8 µg/g, 15 vezes acima do nível seguro.

    “Esse bebê é monitorado ao longo dos primeiros dois anos de vida em diferentes momentos. São acompanhadas as curvas de crescimento, de peso para a idade, de estatura, entre outros. A nossa hipótese é que a exposição durante o período pré-natal ao mercúrio provoca retardo nesses marcos do neurodesenvolvimento”, diz Paulo Basta.

    “O mercúrio se converte em uma neurotoxina que vai afetar principalmente o tecido do sistema nervoso central. Uma lesão que ocorre no sistema nervoso central é uma lesão irreversível. As pessoas vão ter que lidar com esse problema para sempre”, completa.

    O pesquisador cita crescimento de crianças nascendo com doenças neurológicas raras, síndromes, anomalias congênitas e doenças sem um diagnóstico formado ainda. Todas suspeitas de terem relação com a contaminação por mercúrio. Ele também destacou que o distrito sanitário especial indígena Rio Tapajós foi a unidade de saúde que mais demandou cadeiras de rodas para o Ministério da Saúde.

    “É importante que esses dados se convertam em estatísticas oficiais, o que não existiam até muito recentemente no Brasil. O nosso sistema ainda não tem disponível uma ficha de notificação para os casos de contaminação específica por mercúrio”, disse Paulo.

    “Apesar dessas limitações, temos 751 casos identificados de indígenas contaminados por mercúrio com confirmação laboratorial.  Desse conjunto, 318 são do Pará e 378 são de Roraima, ligados ao povo Yanomami”, completa.

    Revolta com diagnóstico

    A liderança Alessandra Korap Munduruku conta que houve uma comoção coletiva quando os primeiros resultados de contaminação por mercúrio foram divulgados em 2022. A primeira parte do estudo, que monitorava indivíduos de todas as idades, começou em 2019 em três aldeias da terra Sawré Muybu.

    “Estávamos doentes, mas sem exames, não sabíamos o que estava acontecendo. Quando tivemos os resultados, fizemos uma reunião e as mulheres estavam bem revoltadas. Perguntavam se deveriam interromper a gravidez porque o útero estaria contaminado e o leite materno também poderia contaminar os filhos”, conta.

    A região onde vive o povo Munduruku tem sido afetada pelo garimpo ilegal de ouro há décadas. O mercúrio é utilizado no garimpo para separar o ouro da terra. A prática contamina os rios e os seres que vivem nele. O metal entra no organismo humano principalmente pelo consumo de peixes contaminados.

    “Nossa principal fonte de alimento é o peixe e não há como fugir disso. Para quem mora na cidade é muito fácil. Vão nas prateleiras, compram frango e carne, tem outras opções. O coração dói quando vê a situação do povo, porque eles não têm como sair do território e ir para outro lugar”, diz Alessandra.

    “O lugar é nosso. Porque precisamos dar nosso espaço para empresas, garimpo, mineração, hidrelétricas, ferrovias? Porque que a carne do índio é mais barata? É como se nós não existíssemos. Que progresso é esse que mata rios, florestas e expulsa os povos?”, indaga.

    Rastro do garimpo

    Cerca de 92% da área garimpada legal ou ilegal no Brasil se concentra na Amazônia, segundo dados do MapBiomas. A estimativa é que 85% dos garimpos no país se dedicam à extração de ouro.

    O índice alto de ilegalidade no setor traz impactos socioambientais para além da contaminação por mercúrio: desmatamento, violência, conflito com povos tradicionais trabalho escravo, sonegação de impostos e evasão de divisas.

    Estudo divulgado esta semana pelo Greenpeace mostra como Permissões de Lavra Garimpeira (PLGs) são usadas para venda de ouro extraído ilegalmente da Amazônia, com impactos em terras indígenas e áreas protegidas. A estratégia permite escapar do licenciamento ambiental mais rigoroso e das regras da mineração industrial, além de facilitar a lavagem de ouro.

    Porém, os impactos negativos do garimpo não decorrem apenas da extração ilegal, segundo análise da Climate Policy Initiative. A atividade é regulamentada no Brasil principalmente pelo Código de Mineração, pela Lei nº 7.805/1989 e por normas da Agência Nacional de Mineração (ANM).

    Para os analistas, flexibilizações indevidas do licenciamento ambiental em âmbito estadual e falta de transparência para implementar salvaguardas socioambientais enfraquecem o controle da atividade.

    A promotora do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), Eliane Moreira, reforça a responsabilidade dos entes públicos de todos os níveis no ciclo que envolve o garimpo e a contaminação dos povos indígenas por mercúrio.

    “Essa grande contaminação de mercúrio acontece a partir de um licenciamento bastante frágil. Em municípios com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), não há estrutura institucional para uma fiscalização suficiente e existe um ambiente propício para toda essa tragédia”, diz a procuradora.

  • 92% dos brasileiros demonstram preocupação com animais silvestres – e unidades do ICMBio mostram como a conservação acontece na prática

    92% dos brasileiros demonstram preocupação com animais silvestres – e unidades do ICMBio mostram como a conservação acontece na prática

    92% dos brasileiros demonstram preocupação com animais silvestres – e unidades do ICMBio mostram como a conservação acontece na prática

    á um Brasil que ainda se emociona quando vê uma onça atravessando a mata, um povo que para ao ver uma arara voando, uma gente que se arrepia com o canto das aves e que reconhece, mesmo em meio ao caos das grandes cidades, que existe algo de essencial na permanência da vida silvestre. 

    Uma pesquisa recente do Instituto Vida Livre, em parceria com a Quaest, aponta aquilo que o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) presencia diariamente em suas unidades de conservação (UCs) federais, centros de pesquisa e ações em campo: os brasileiros demonstram preocupação crescente com os animais silvestres e reconhecem a importância da conservação ambiental. De acordo com o estudo, para 92% dos brasileiros, preservar os animais silvestres é algo “muito importante” (83%) ou “importante” (9%). Além disso, 68% da população acredita que a proteção da fauna deve estar entre as prioridades do país. 

    Mas existe uma pergunta inevitável por trás dessa sensibilização coletiva: o quanto esse apoio se transforma, de fato, em apoio efetivo à conservação da biodiversidade? 

    Mais do que revelar empatia pela fauna, a pesquisa evidencia um desafio central para a conservação no país: transformar este sentimento em participação ativa. Isso envolve desde atitudes cotidianas e engajamento social até o fortalecimento das políticas públicas ambientais, das unidades de conservação e das ações de pesquisa, monitoramento e fiscalização. 

    Nas unidades de conservação e centros de pesquisa do Instituto Chico Mendes, essa questão é prioritária aos trabalhos de quem atua para evitar o desaparecimento silencioso de espécies ameaçadas. 

    “O resultado dessa pesquisa mostra que a sociedade brasileira compreende algo que a ciência vem alertando há décadas: não existe futuro possível com florestas vazias e espécies desaparecendo diante dos nossos olhos, salienta Marcelo Marcelino, diretor de Pesquisa, Avaliação e Monitoramento da Biodiversidade (DIBIO) do ICMBio. 

    “A proteção da fauna silvestre depende de políticas públicas permanentes, investimento em pesquisa, fiscalização, conservação dos habitats e fortalecimento das unidades de conservação”, destaca Marcelo Marcelino. 

    Segundo ele, quando uma espécie desaparece, não se perde apenas um símbolo da natureza brasileira. “Quando uma onça perde território, quando uma arara desaparece de um bioma, não estamos falando apenas da perda de um animal simbólico – estamos falando do enfraquecimento dos ecossistemas que sustentam a vida, a água, o clima e a própria segurança ambiental da população”, afirma. 

    Entre os animais silvestres, a pesquisa mostra que a onça-pintada (33%) e a arara (20%) são as espécies que mais representam o Brasil para a população. No ICMBio, projetos desenvolvidos em diferentes biomas ajudam a conservar essas espécies e também muitas outras que, mesmo menos conhecidas, são fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas brasileiros. 

    Onde há onça, há vida 

    No Parque Nacional do Iguaçu (PR), o segundo mais visitado do país em 2025, uma das mais importantes populações de onça-pintada da Mata Atlântica sobrevive graças a um esforço contínuo de pesquisa, monitoramento, proteção territorial e cooperação institucional. 

    “A onça-pintada é uma espécie-chave para o equilíbrio dos ecossistemas e sua presença no Parque Nacional do Iguaçu é um importante indicador da qualidade ambiental da unidade de conservação”, coloca o chefe da unidade, Ulisses dos Santos. 

    Predadora de topo da cadeia alimentar, a onça regula populações de outras espécies e ajuda a manter processos ecológicos fundamentais para a floresta. Sem ela, o equilíbrio ambiental começa a se desfazer em cadeia. 

    “Onde há onça, há vida”, resume Ulisses.  

    Mas proteger grandes mamíferos exige muito mais do que admiração pública. 

    A perda e fragmentação dos habitats, os atropelamentos, os conflitos com atividades humanas e a redução dos remanescentes florestais seguem entre os maiores desafios enfrentados pela espécie. É nesse ponto que se apresentam os trabalhos do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (CENAP) do ICMBio. 

    Embora a onça-pintada seja o animal mais conhecido, o centro atua também na conservação de espécies menos visíveis – e muitas vezes mais vulneráveis – como ariranhas, jaguatiricas, gato-palheiro-pampeano, gato-macambira, raposinha-do-campo e lobos-guará. 

    Para o coordenador do centro, Rogério Cunha, um dos maiores paradoxos da conservação no país é justamente a distância entre o discurso ambiental e o apoio efetivo às ações de campo. 

    “Todo mundo acha bonito, acha importante proteger, mas quando a gente fala de realmente investir em ações de conservação, em disponibilizar recursos, cadê essas pessoas?” questiona.  

    Segundo Rogério, muitos projetos de conservação ainda dependem de redes de apoio externas, parcerias e campanhas de financiamento coletivo para fortalecer iniciativas de proteção da fauna. O desafio, afirma, é fazer com que a grande mobilização emocional que os animais despertam também se converta em maior engajamento da sociedade geral e do setor privado com a conservação. 

    O pesquisador também chama atenção para outro desafio crescente: a disseminação de conteúdos sensacionalistas e fake news envolvendo animais silvestres. Vídeos que tratam onças, lobos e outros carnívoros como atrações turísticas ou animais domesticáveis acabam reforçando uma percepção equivocada da fauna e dificultam estratégias de conservação baseadas em ciência e coexistência responsável.  

    Para ele, apoiar a conservação também significa defender políticas públicas ambientais e cobrar compromisso institucional dos setores que geram impactos sobre os habitats naturais.  

    Araras que ajudam a reconectar a cidade com a floresta 

    No coração de uma das maiores metrópoles do país, o Parque Nacional da Tijuca (RJ) convive diariamente com esse encontro entre pessoas e fauna silvestre. Ali, em meio à Mata Atlântica cercada pela cidade, histórias como as das araras Fátima e Sueli ajudam a aproximar o público urbano da biodiversidade brasileira – e transformam aves em símbolos vivos da conservação. 

    Além de personagens carismáticas, as araras representam também o trabalho contínuo de conservação, monitoramento e educação ambiental desenvolvido pelo ICMBio. Em uma floresta inserida dentro de uma grande área urbana, proteger a fauna exige pesquisa, manejo, acompanhamento técnico e, principalmente, a construção de uma relação mais consciente entre sociedade e natureza. 

    A chefe do parque nacional, o mais visitado do país, Viviane Lasmar, vai ao encontro de Marcelino. “Os dados da pesquisa refletem a nossa rotina no Parque Nacional da Tijuca: o brasileiro tem um forte laço afetivo com a fauna silvestre, mas esse sentimento precisa virar cuidado concreto”, diz.  

    O parque convive com desafios permanentes relacionados à coexistência entre pessoas e vida silvestre. O avanço das construções da cidade, a circulação intensa de visitantes e práticas inadequadas no contato com os animais impactam diretamente a fauna e os ecossistemas protegidos. 

    É por isso que, segundo Viviane, “proteger essas espécies e combater a síndrome da floresta vazia é um compromisso urgente que depende diretamente das escolhas práticas de cada cidadão”.  Ela lembra que pequenas atitudes fazem diferença direta na proteção da fauna: não alimentar animais, respeitar trilhas, descartar corretamente o lixo e compreender que espécies silvestres não pertencem ao ambiente doméstico nem ao entretenimento humano. 

    “O passo a ser dado, além do afeto, é transformar a empatia pelos bichos em respeito real, educação ambiental e engajamento permanente com o habitat deles”, recomenda Viviane. 

    Nesse processo, o trabalho do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (CEMAVE) do ICMBio estrutura estratégias de conservação em escala nacional. Como um dos 14 centros de pesquisa do Instituto, avalia o estado de conservação das espécies, elabora Planos de Ação Nacional (PANs), e atua no monitoramento populacional e em ações voltadas à proteção das aves brasileiras ameaçadas.  

    A coordenadora do CEMAVE, Priscilla do Amaral, também alerta para o fato de existir uma distância significativa entre sensibilização e ação prática, e destaca que as aves possuem enorme capacidade de aproximar as pessoas da biodiversidade justamente porque fazem parte do cotidiano, inclusive em áreas urbanas. “Elas carregam um forte simbolismo cultural associado à liberdade, beleza e equilíbrio ambiental, funcionando como importantes embaixadoras da conservação, explica.  

    Além do simbolismo, o monitoramento das aves também funciona como ferramenta de medição da saúde ambiental dos ecossistemas. O desaparecimento ou redução populacional de determinadas espécies pode indicar desequilíbrios ambientais relacionados ao desmatamento, fragmentação florestal, poluição e/ou mudança do clima. 

  • Embrapa cria calcário mais nutritivo resistente à umidade e ao vento

    Embrapa cria calcário mais nutritivo resistente à umidade e ao vento

    Embrapa cria calcário mais nutritivo resistente à umidade e ao vento

    A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolveu um tipo de calcário que proporciona menos perdas e mais economia na preparação do plantio. O melhoramento do insumo, que é utilizado para corrigir a acidez do solo (seu potencial hidrogeniônico – pH), também possibilita ganhos de produtividade à lavoura.

    O calcário recriado pelo Laboratório de Nanobiotecnologia (LNANO) da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Brasília-DF) é um produto nanoestruturado, feito por meio de moagem de alta energia, que reduz materiais ao tamanho próximo de átomos e moléculas, e da aglutinação de partículas para formação de grânulos com mais resistência mecânica e uniformidade.

    O resultado é que o calcário ganha forma granulada. Em vez de ser aplicado como pó, sujeito a dispersão pelo vento, pode ter diferentes tamanhos e ser distribuído sem sofrer com o efeito. A outra vantagem é que o novo calcário é menos vulnerável à umidade existente no armazenamento e no transporte.

    A umidade empedra o calcário comum e gera perdas aos produtores porque o produto não pode mais ser utilizado no maquinário agrícola.

    O trabalho dos pesquisadores do LNANO transformou o calcário em um produto multifuncional. Além de ser um corretivo para a acidez do solo, na nova formulação tornou-se nutritivo: um fertilizante misto que pode ser usado em pastagens e culturas como algodão, café, cana-de-açúcar, milho e soja.

    Culturas diversas

    “Nós fizemos diversos protótipos com concentrações diferentes para conseguir efetivamente atender a culturas diversas. Também foi possível combinar proporções diferentes desse calcário”, expõe o biólogo Luciano Paulino da Silva, pesquisador da Embrapa na área de nanobiotecnologia.

    Com a nova formulação, o calcário rico em cálcio ou magnésio, que serve para a correção do solo, passa a poder contar com nutrientes como o nitrogênio, fosfato, potássio, boro, cobre e zinco. “Tem culturas que requerem quantidade maior de determinados nutrientes e outras, quantidade menor. Para cada cultura, há sua composição ideal”, explica o pesquisador.

    Produtividade

    Pesquisador da Embrapa Luciano Paulino da Silva diz que o calcário nanoestruturado aumenta a produtividade. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

    A expectativa de Silva é que o novo insumo torne a lavoura mais saudável e produtiva. “A lógica principal quando se faz uma correção de acidez e se adiciona micronutrientes ou macronutrientes em um produto é ganhar produtividade, aumentando a saudabilidade da planta em si e, consequentemente, agregando benefícios a essa cultura.”

    O calcário nanoestruturado potencialmente pode diminuir a aplicação de agrotóxicos na plantação. Ainda faltam testes com pragas diferentes que garantam o menor uso desses produtos. Mas se a planta está beneficiada com os nutrientes adequados, ela pode estar mais protegida de fatores que atrapalham seu desenvolvimento.

    “Funciona mais ou menos como no nosso caso. Quando estamos bem alimentados, a tendência é que o nosso sistema imunológico seja menos exposto”, compara o pesquisador do LNANO Andre Felipe Camara Amaral.

    Escalas

    O novo calcário já foi produzido em escalas diferentes, desde a escala laboratorial (10g) até industrial (toneladas) e teve a sua “eficiência agronômica” medida em plantações de soja e trigo.

    “Os resultados indicam que os protótipos mantêm poder de neutralização adequado e oferecem potencial para ganhos de produtividade e redução de operações no campo”, registra nota técnica da Embrapa a que a Agência Brasil teve acesso.

    As testagens fora dos laboratórios da Embrapa são da iniciativa da Perical, uma empresa brasileira com unidades em Goiás e Tocantins, especializada em mineração de calcário agrícola.

    Há mais de três anos, a companhia assinou com a Embrapa um acordo de cooperação técnica que permitiu a contratação de pesquisadores bolsistas, a aquisição de equipamentos e o custeio de material de consumo para o desenvolvimento do calcário nanoestruturado.

    A Embrapa é uma empresa estatal vinculada ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Desde sua criação, em 1973, seus cientistas pesquisam e desenvolvem tecnologias e inovações para a agricultura e pecuária.

  • Junho será mais quente do que a média na maior parte do país

    Junho será mais quente do que a média na maior parte do país

    Junho será mais quente do que a média na maior parte do país

    A previsão do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para o mês de junho indica chuva acima da média em áreas das regiões Norte, Nordeste e Sul. As temperaturas devem ficar acima da média em grande parte do país, principalmente na porção central.

    Para a Região Sudeste, o prognóstico aponta chuvas abaixo da média no sul de Minas Gerais e em grande parte de São Paulo. Nas demais áreas da região, são previstos volumes próximos à média histórica.

    Na Região Sul, a previsão indica chuva acima da média em praticamente todo o Rio Grande do Sul. Por outro lado, em boa parte do Paraná e no nordeste de Santa Catarina são previstos volumes na faixa normal ou abaixo da média.

    No Norte, são previstos totais de chuva acima da média em praticamente todo o Pará, sudoeste e centro-leste do Amazonas, centro-sul de Roraima e em todo o Amapá. Por outro lado, são esperados volumes abaixo da média no restante do estado de Roraima e extremo noroeste do Pará.

    Em relação à Região Nordeste, é prevista chuva acima da média no norte do Maranhão e Piauí, e em grande parte dos estados de Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas. Nas demais áreas da região, espera-se volumes de chuva próximos à média.

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    Temperatura

    Os termômetros devem registrar temperaturas acima da média para o mês de junho em todas as regiões do país.

    No Sudeste, a previsão é de temperaturas acima da média em todos os estados. Em áreas como o norte de Minas Gerais e o oeste de São Paulo, são previstos aumentos de até 1,5 °C em relação à média do mês.

    Na Região Sul, a previsão é de temperaturas até 1 °C acima da média em todos os estados. Em algumas áreas, como o norte do Paraná e o extremo oeste de Santa Catarina, pode haver aumento de até 1,5 °C em relação à média de junho.

    Para o Centro-Oeste, o Inmet indica temperaturas médias até 1 °C acima da climatologia do mês em todos os estados. Em regiões como o leste de Goiás, noroeste e sudoeste do Mato Grosso e grande parte do Mato Grosso do Sul, são previstos aumentos de até 1,5 °C em relação à média histórica de junho.

    Na Região Nordeste, o Inmet prevê temperaturas até 1°C acima da média em grande parte do Matopiba, que reúne os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí, Bahia e Mato Grosso, e nos estados de Pernambuco, Alagoas e Sergipe. 

    No Norte do país, a previsão indica predomínio de temperaturas acima da média de junho em até 1°C. Exceções ocorrem no extremo noroeste do Pará, centro-sul de Roraima e centro-norte de Rondônia, onde são esperadas temperaturas próximas à média do mês.

     

  • Pesquisadores querem criar índice para “traduzir” estresse ambiental

    Pesquisadores querem criar índice para “traduzir” estresse ambiental

    Pesquisadores querem criar índice para “traduzir” estresse ambiental

    Renato Lino é profeta da chuva, em Quixadá, no Ceará, e aprendeu com o pai que a natureza fala e que dá para traduzir o que ela diz.

    “É a catingueira que descasca, é a casinha da maria-de-barro, é o angico e muitas coisas que a gente observa”, explica.

    É observando os seres vivos ao redor, como árvores e passarinhos, que o profeta de 78 anos faz previsões climáticas. “Tudo isso é coisa que a gente vai ajuntando, vai anotando”. Explica o “cientista” do sertão, que só de olhar para que lado está a porta de entrada do Funarius furnus, nome científico do pássaro conhecido como maria-de-barro, ele sabe dizer se vai chover no sertão.

    É esse tipo de informação que pesquisadores querem aprender a decodificar usando tecnologia digital e inteligência artificial. A ideia vai começar a ser posta em prática em Recife.

    O projeto vai observar seres vivos que fazem parte da cena urbana da cidade para descobrir o que eles estão “falando” sobre o ambiente no qual estão inseridos. Uma espécie de tradutor digital, ou como resume Artur Maia, biólogo e pesquisador do departamento de botânica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE): uma Babel reversa.

    O projeto vai usar equipamentos para captar os sons emitidos por morcegos, o ritmo de abertura e fechamento das conchas das ostras, a transpiração das aroeiras (árvore nativa da região) e o vôo das abelhas em Recife e comparar com os registros das mesmas espécies em áreas com menor influência humana, como Reserva Ambiental de Saltinho e na APA de Guadalupe, ambas no litoral sul de Pernambuco.

    “As respostas metabólicas são particulares de cada organismo, mas muitas vezes isso não é utilizado como informação, simplesmente porque a gente não consegue entender aquela língua”, diz Artur.

    “As ostras, por exemplo, tendem a abrir com menor frequência em condições adversas. Ela segura a onda, reduz a frequência de filtração e fica sem se alimentar para se manter naquele ambiente e evitar o acúmulo de metal pesado e outras coisas”.

    Índice de Resiliência Metabólica

    Artur explica que é a diferença entre o “ritmo de vida” dessa ostra estressada e o da que vive numa área de proteção que mostra a resiliência metabólica da espécie. “Eu quero verificar o quanto aquele organismo está se esforçando para sobreviver naquele ambiente”, afirma.

    A ideia é reunir os dados das respostas metabólicas de cada espécie monitorada para calcular o Índice de Resiliência Metabólica (IRM) do lugar. Algo como um IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), mas com parâmetros ambientais.

    “O estresse é uma informação que não pode ser fingida.  Essa resposta metabólica existiu, aconteceu. O que a gente quer é, de posse dessa informação, juntar o nervosismo da abelha, a movimentação da ostra mais tranquila, a respiração da aroeira, para ter um índice de resiliência metabólica, que a gente quer padronizar numa escala de 0 a 100”.

    Batizado como Apeiron, palavra grega que significa ilimitado, a pesquisa vai começar os primeiros testes até novembro, em Recife, e vai ser conduzido pelo Centro de Estudos e Sistemas Avançados de Recife (CESAR).

    E assim como seu Lino, o profeta da chuva que traduz o que vê em previsão, Artur Maia diz que a observação do metabolismo das espécies que convivem com os seres humanos pode se transformar em ações concretas:  “um planejamento urbano pensando na cidade como um organismo vivo, com as suas particularidades”, explica.

    “Pode ser que, por exemplo, lá na Mustardinha [bairro de Recife] a pressão térmica para aqueles habitantes não se reflita em desconforto habitacional como se reflete para o habitante da zona norte, no bairro de Casa Forte. Então essa pressão é diferente. Se tem uma coisa que você não pode fingir, é conforto metabólico”, conclui.

  • Cinco lagos amazônicos impactados pelas mudanças climáticas são monitorados por pesquisadores e comunidades tradicionais

    Cinco lagos amazônicos impactados pelas mudanças climáticas são monitorados por pesquisadores e comunidades tradicionais

    Cinco lagos amazônicos impactados pelas mudanças climáticas são monitorados por pesquisadores e comunidades tradicionais

    Desde 2025, o projeto “Lagos Sentinelas da Amazônia” desenvolve oficinas e ações de monitoramento ambiental e climático, aliadas à construção de soluções socioambientais para comunidades de cinco lagos da Amazônia brasileira impactados por eventos extremos climáticos registrados nos últimos anos. Entre eles está o Lago de Tefé, que ganhou repercussão internacional ao se tornar o epicentro da mortandade de botos decorrente da seca extrema de 2023.

    Além das oficinas realizadas com moradores dos cinco territórios, o projeto instalou quatro estações meteorológicas no Amazonas e uma no Pará. A iniciativa também implantou sensores para monitoramento do nível da água, oxigênio dissolvido e temperatura nos cinco lagos, além de realizar o acompanhamento contínuo da qualidade da água.

    Ao todo, 69 pesquisadores e 200 comunitários participam das atividades do projeto, que realiza oficinas e ações socioambientais e monitoramento ambiental em quatro lagos do Amazonas e um do Pará: Lago de Tefé, em Tefé; Lago de Coari, em Coari; Lago de Janauacá, em Manaquiri; Lago de Serpa, em Itacoatiara; e Lago Grande de Monte Alegre, em Monte Alegre (PA).

    Viabilizado pela chamada CNPq/MCTI/FNDCT nº 19/2024 – Pró-Amazônia, o projeto tem como principais apoiadores o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), além de reunir 15 instituições nacionais e internacionais parceiras.

    Oficinas fortalecem participação comunitária e ampliam alcance do projeto

    Entre outubro de 2025 e março de 2026, o projeto realizou oficinas de diagnóstico participativo nos cinco lagos monitorados, reunindo representantes de 52 comunidades ribeirinhas, quilombolas e tradicionais. As atividades foram coordenadas por pesquisadores do Instituto Mamirauá, da Universidade Federal do Amazonas, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e da Universidade Federal do Oeste do Pará.

    As oficinas colaborativas tiveram como principal objetivo envolver os moradores para um diagnóstico socioambiental a partir das próprias percepções das comunidades. Por meio de rodas de conversa, escuta ativa e construção coletiva do conhecimento, comunitários e pesquisadores compartilharam experiências relacionadas ao saneamento, saúde, mudanças climáticas, governança local e monitoramento ambiental.

    Segundo Heloísa Pereira, pesquisadora do Instituto Mamirauá e coordenadora das oficinas, a proposta é aproximar a pesquisa científica da realidade vivida pelas populações amazônicas. “A meta principal foi identificar percepções sobre mudanças ambientais, desafios relacionados ao saneamento, uso da água, recursos naturais e condições de vida, além de fortalecer o engajamento comunitário nas etapas iniciais do projeto Lagos Sentinelas da Amazônia”, afirmou.

    Os encontros também evidenciaram os impactos das mudanças climáticas no cotidiano das comunidades. Moradores relataram dificuldades enfrentadas durante as secas extremas dos últimos anos, como escassez de água, mortalidade de peixes e dificuldades no transporte e na produção local.
    Durante as oficinas, os comunitários desenvolveram um documento de diagnóstico socioambiental. Mediado pelo projeto, o material reúne demandas, propostas de soluções e melhorias voltadas à construção de novas políticas públicas para seus territórios.

    No Lago de Tefé, o morador Sr. Ediney, da comunidade São Raimundo de Cima, relembrou os impactos da estiagem extrema registrada em 2024. “Esses anos que morei aqui, o lago seca, mas nunca tinha ficado como ficou no ano passado. Então isso pra mim não foi motivo nem de alegria, foi de tristeza de ver tantos peixes morrendo”, contou. O comunitário também destacou as dificuldades enfrentadas pelas famílias para manter a produção e o deslocamento na região durante a seca.

    Para os pesquisadores envolvidos, um dos principais resultados das oficinas foi a construção conjunta entre ciência e conhecimento tradicional. “As oficinas tiveram um forte envolvimento dos comunitários. A preocupação das lideranças comunitárias do Lago de Tefé sobre a crise ambiental atual é bastante clara, e ressalta a relevância do nosso projeto em construir junto a eles propostas de soluções concretas para os desafios vigentes”, destacou o pesquisador do Instituto Mamirauá e coordenador do projeto, Ayan Fleischmann.

    Além de elaborar documentos específicos para cada lago, o material produzido durante as oficinas deverá orientar futuras ações do projeto e fortalecer a capacidade das comunidades de reivindicar políticas públicas adequadas às realidades locais.

    Sentinelas das mudanças climáticas: unindo conhecimento científico local e acadêmico

    A realização das oficinas busca aproximar os ribeirinhos das estratégias do projeto para que, posteriormente, passem a integrar o monitoramento ao lado dos pesquisadores parceiros. A proposta é transformá-los em “sentinelas”, vigilantes dos lagos, por meio de treinamentos previstos para ocorrer ainda em 2026. A atuação operacional deve começar em 2027, com acompanhamento contínuo dos pesquisadores.

    Entre fevereiro e maio de 2026, cinco estações meteorológicas foram instaladas no Amazonas e no Pará: na comunidade Bom Jesus da Ponta da Castanha, no Lago de Tefé; na comunidade São Thomé do Patoá, no Lago de Coari; na comunidade Trilheiro, em Manaquiri, no Lago de Janauacá; e na comunidade Sagrado Coração de Jesus, no Lago de Serpa. No Pará, a instalação ocorreu no Lago Grande de Monte Alegre, na comunidade Aldeia, em abril de 2026.

    As estações irão coletar dados essenciais para a compreensão das condições climáticas em cada lago, como temperatura e umidade do ar, direção e velocidade do vento, radiação solar e volume de chuvas. A iniciativa deve transformar os grandes lagos monitorados em importantes “termômetros” dos efeitos das mudanças climáticas na Amazônia.

    Desde o início do ano, os pesquisadores do projeto já monitoram os níveis dos cinco lagos por meio de sensores e realizam coletas de água para verificar a qualidade e a temperatura em cada um deles.

    Sobre o projeto Lagos Sentinelas da Amazônia

    O projeto “Lagos Sentinelas da Amazônia: Centro Transdisciplinar para Compreensão das Dinâmicas Socioambientais e das Águas Amazônicas sob Mudanças Climáticas” é uma iniciativa que reúne pesquisadores, gestores públicos e comunidades ribeirinhas com o objetivo de compreender e monitorar, de forma colaborativa, os impactos das mudanças climáticas nos lagos da Amazônia Central e possíveis soluções, especialmente para comunidades que vivem no entorno.

    A iniciativa teve início diante dos cenários alarmantes enfrentados pela população e pelos ecossistemas amazônicos nos últimos anos. Lagos da região se mostraram particularmente sensíveis às mudanças climáticas, sendo impactados por secas extremas que ocasionaram a morte de diversas espécies, entre elas centenas de botos nos lagos de Tefé e Coari, no Amazonas, além de afetar a população que vive nessas regiões. Nesse contexto, devido ao fato de os lagos estarem em posições mais baixas na paisagem, eles funcionam como “sentinelas” porque recebem, abrigam, acumulam e refletem tudo o que está em seu entorno.

    O projeto é coordenado pelo pesquisador do Instituto Mamirauá, Ayan Fleischmann e é financiado pela chamada CNPq/MCTI/FNDCT nº 19/2024 – Pró-Amazônia, voltada à criação de Centros Avançados em Áreas Estratégicas para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia. O projeto também conta com apoio da Fundação Gordon e Betty Moore e WCS por meio da parceria com a Aliança Águas Amazônicas, da Fapeam, Sedecti e Governo do Amazonas, além da participação de 15 instituições nacionais e internacionais.

    Entre as instituições parceiras do projeto, estão: Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio), Instituto Tecnológico Vale (ITV), Serviço Geológico do Brasil (SGB), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade de Brasília (UnB), Sociedade para a Pesquisa e Proteção do Meio Ambiente (Sapopema), Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), Instituto Cary e Universidade Bangor e Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (UCSB).

  • Estudo prevê secas acima da média no Brasil e na Amazônia nos próximos 5 anos

    Estudo prevê secas acima da média no Brasil e na Amazônia nos próximos 5 anos

    Estudo prevê secas acima da média no Brasil e na Amazônia nos próximos 5 anos

    As temperaturas médias globais provavelmente continuarão em níveis recordes ou próximo deles até 2030, de acordo com um novo relatório da Organização Meteorológica Mundial, OMM, produzido pelo Met Office do Reino Unido.

    O estudo, divulgado nesta quinta-feira, afirma que as temperaturas médias globais próximas à superfície durante 2026 a 2030 devem variar entre 1,3°C e 1,9°C acima da média de 1850-1900, a era pré-industrial.

    86% de chance de um novo recorde de calor

    Os dados revelam ainda uma chance de 86% de que um dos anos de agora até 2030 ultrapasse 2024 como o ano mais quente já registrado.

    O autor principal do relatório, Leon Hermanson, ressaltou que há um El Niño previsto para o final deste ano, o que aumenta as chances de que 2027, seja o próximo ano recorde.

    Os especialistas afirmam ser excepcionalmente improvável que, nos próximos cinco anos, a temperatura ultrapasse 2°C acima da média pré-industrial.

    Condições de seca afetam o Brasil

    E o estudo cita o Brasil, ao afirmar que previsões de chuvas para as estações, de maio a setembro, sugerem anomalias úmidas na região do Sahel, norte da Europa, Alasca e Sibéria, e anomalias secas sobre a Amazônia entre 2026 e 2030.

    O estudo ressalta ainda que partes do Brasil provavelmente ficarão mais secas do que o habitual.

    Já em latitudes altas do Hemisfério Norte, as previsões de chuva favorecem condições mais úmidas que a média para as próximas cinco estações de inverno.

    O padrão de aumento da precipitação nos trópicos e latitudes altas em comparação com o período de referência de 1991 a 2020, e a redução das chuvas nos subtrópicos, especialmente no Hemisfério Sul, é considerado consistente com as expectativas de um clima em aquecimento.

    Temperaturas árticas 2,8°C acima da média

    As temperaturas árticas nos próximos cinco invernos do Hemisfério Norte, de novembro a março, devem ser 2,8°C acima da média registrada de 1991 a 2020.

    Esta alta é 3,5 vezes superior à anomalia global de temperatura no mesmo período, segundo o informe.

    Além disso, as previsões para março de 2026 a 2035 sugerem novas reduções na concentração de gelo marinho nos Mares de Barents, Bering e Okhotsk.

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