Categoria: Meio Ambiente

  • Povos tradicionais lançam aliança inédita para defender Mata Atlântica

    Povos tradicionais lançam aliança inédita para defender Mata Atlântica

    Povos tradicionais lançam aliança inédita para defender Mata Atlântica

    Representantes de territórios ancestrais lançaram nesta quarta-feira (27), em São Paulo, a Aliança dos Povos e Comunidades Tradicionais Guardiões da Mata Atlântica. O lançamento ocorreu na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no Dia Nacional da Mata Atlântica.

    Formada por povos indígenas, caiçaras, quilombolas, caboclos, marisqueiras, povos de terreiro e pescadores artesanais de várias partes do país, a aliança foi organizada para representar e defender a Mata Atlântica, um dos biomas mais ameaçados do país. A coalizão também luta pela garantia dos direitos territoriais desses povos e comunidades.

    “Somos povos e comunidades tradicionais, guardiãs e guardiões de saberes ancestrais que nos permitem cuidar de nossa mãe natureza, suas florestas, rios, lagoas e mares”, diz o manifesto de lançamento da aliança.

    Em entrevista à Agência Brasil, a coordenadora da Comissão Guarani Yvyrupa e habitante da Aldeia Rio Bonito, no Sertão de Itamambuca, em Ubatuba (SP), Ivanildes Kerexu, disse que a aliança é um projeto de união dos povos e que busca também reforçar a luta por esse território.

    “Precisamos fazer essa Aliança da Mata Atlântica para que a gente possa ter o direito de políticas públicas e, claro, também para a preservação ambiental”, disse a coordenadora.

    “O que manteve até hoje a Mata Atlântica sempre foram as comunidades tradicionais que nela vivem e que estão ali resistindo”, reforçou.

    Para os povos indígenas, contou Ivanildes, a Mata Atlântica tem um significado muito especial, por incorporar “uma espiritualidade muito forte”. “Nossa crença do povo Guarani sempre foi que essa é uma região que para gente seria uma terra sem mal. Essa é a visão que o nosso povo sempre teve.”

    Presente ao ato de lançamento, a deputada federal Sonia Guajajara (PSOL-SP), ex-ministra dos Povos Indígenas, ressaltou a importância do movimento como espaço de diálogo, de denúncias e de construção.

    “Para nós é óbvio: o que para nós é o dia a dia de enfrentamento que a gente faz nem sempre é compreendido pelas estruturas legais. Por isso se fazem necessárias essas vozes todos os dias para que essa mensagem chegue em todos os lugares. E não só chegue, mas que seja compreendida”, disse durante o evento.

    Segundo Guajajara, além das consequências da exploração, da mineração e do desmatamento, o Brasil enfrenta agora uma ameaça internacional relacionada à exploração de terras raras e minerais críticos.

    “Se as terras raras forem exploradas da mesma forma, sem considerar direitos, sem considerar salvaguardas, sem considerar consulta livre, prévia e informada, as consequências não serão diferentes do que é a exploração do petróleo para nossos povos”, disse ela.

    Por isso, destacou a ex-ministra, a criação dessa articulação nasce em momento bastante oportuno. “A gente enfrenta estruturas muito poderosas, como a econômica e a política, que não querem de forma alguma compreender o que a gente faz enquanto contribuição para a vida no planeta. Então, esse fórum de comunidades dos povos tradicionais em defesa da Mata Atlântica se fortalece num momento muito necessário, que é esse momento em que mais da metade da Mata Atlântica já se perdeu.”

    Rede de proteção

    A Aliança dos Povos e Comunidades Tradicionais Guardiões da Mata Atlântica nasceu como uma grande rede de proteção desse bioma, considerado o berço comum da história e da biodiversidade brasileira.

    Primeiro bioma a sofrer os impactos da colonização, atualmente a Mata Atlântica é ameaçada pelos grandes empreendimentos e pela especulação imobiliária. Outros fatores que também têm contribuído para a sua destruição, dizem os integrantes da aliança, é o turismo exploratório – principalmente com a construção de novos resorts, além do uso de agrotóxicos e da exploração do petróleo e de combustíveis fósseis.

    Dados sobre a Mata Atlântica revelam que restam hoje apenas cerca de 12,4% de sua vegetação original, que originalmente cobria 15% do território brasileiro em 17 estados.

    Apesar disso, a floresta ainda abriga mais de 20 mil espécies de plantas e mais de 2 mil espécies de animais vertebrados, sendo que muitas delas não existem em nenhum outro lugar do mundo.

    Além disso, o bioma é vital para a economia e a vida humana, sendo responsável pelo abastecimento de água de mais de 145 milhões de brasileiros, o que representa cerca de 70% da população do país.

    “O tema da Mata Atlântica é recorrente em todo país. Praticamente entre todas as comunidades tradicionais do país passa-se pela necessidade de um cuidado maior com a Mata Atlântica. É por conta da Mata Atlântica que nós temos o nosso de comer e o nosso modo de viver”, disse José Wellington Fontes Nascimento, mais conhecido como Wellington Quilombola. Ele é coordenador do Movimento Quilombola de Sergipe, além de pesquisador e agora coordenador executivo da aliança.

    “A Mata Atlântica vem sendo atacada. Em cada estado a gente encontra situações bem parecidas. Por exemplo, na nossa comunidade Quilombo Porto d’Areia já se tornou comum encontrarmos nas ruas animais como cobra, paca, tatu e outros que estão tendo seu habitat destruído. Por conta disso, eles procuram abrigo nas residências”, relatou.

    “Então, nossa intenção é que a gente possa, com essa aliança, chamar atenção não só do governo nas três esferas, mas dos movimentos sociais e do próprio povo para necessidade da preservação da nossa mata e do nosso bioma, que é o nosso modo de ser e de viver.”

    Segundo o líder quilombola, o movimento pretende não só dar visibilidade para o papel que essas comunidades desempenham no manejo sustentável e na conservação ambiental, mas também propor mudanças políticas para evitar a exploração predatória desse bioma.

    “A política que nós precisamos é a política da boa vivência entre as comunidades tradicionais e os povos que também precisam dela. E não será com tanta exploração e com tanta destruição que a gente vai conseguir vencer. Então a gente precisa mudar essa política”, disse ele à Agência Brasil. “A gente quer chamar atenção [para esse problema] e queremos sentar à mesa para conversar [com as autoridades] para tentar mudar essa situação”, reforçou.

  • Pesquisa amplia conhecimento sobre biodiversidade e impactos ambientais na Amazônia

    Pesquisa amplia conhecimento sobre biodiversidade e impactos ambientais na Amazônia

    Pesquisa amplia conhecimento sobre biodiversidade e impactos ambientais na Amazônia

    Pesquisadores do Amazonas descobriram duas novas espécies de sapos (Allobates sp. e Pristimantins sp.) e uma possível nova espécie de bactéria produtora de mucilagem (Mucilaginibacter sp.), que estão associadas às posturas de ovos de sapos ao longo da rodovia BR-319. A pesquisa feita no âmbito do Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração (Peld) conta com apoio do Governo do Amazonas, por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

    O projeto intitulado Peld Sudoeste do Amazonas (Psam) é desenvolvido por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e buscou compreender os processos ecossistêmicos, as interações biológicas e os impactos das atividades humanas sobre a biodiversidade no sudoeste da Amazônia.

    Entre os organismos encontrados, desde 2020, estão herbáceas, morcegos, fungos, formigas, borboletas, peixes, anfíbios, répteis, aves e insetos. Alguns grupos estudados encontrados no interflúvio Purus-Madeira estão passando por uma fase de testes inédita para identificação de espécies, por meio de tecnologias de baixo custo. Esse processo inclui o uso do equipamento NIR (Near Infrared Spectroscopy), que permite a identificação autônoma e precisa das espécies, tornando o processo taxonômico mais eficiente e ágil.

    Os estudos foram realizados por meio de seis módulos Rapeld (Rapid Assessment of Biodiversity in Long-Term Ecological Research), distribuídos de forma perpendicular à rodovia BR-319, no Amazonas e em Rondônia, o que permitiu avaliar, com precisão, os efeitos da estrada sobre a fauna, a flora e as variáveis ambientais.

    A pesquisa é coordenada pelo doutor em Ciências Biológicas William Ernest Magnusson, do Inpa, e amparada via Chamada Pública nº 021/2020, articulada pelo Confap, com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), CNPq, e a Fapeam.

    Os resultados foram divulgados em 20 artigos publicados em periódicos científicos, 6 livros, 4 livros traduzidos em línguas de etnias indígenas Mura-Pirahã e Tupi-Kagwahiva, e 14 trabalhos apresentados em eventos científicos.

    Módulos de Rapeld

    Os módulos de Rapeld são revisitados periodicamente por equipes multidisciplinares, que realizam coletas padronizadas e comparáveis a outras regiões da Amazônia e do Brasil. A metodologia garante análises em diferentes escalas espaciais e temporais.

    “O intuito da pesquisa é compreender questões relacionadas às mudanças da biodiversidade ao longo do tempo, além de abordar temas mais acessíveis à pesquisa brasileira, como eventos de alteração no uso e cobertura da terra ou a delimitação da distribuição espacial de espécies. Essa capacidade de avaliar as mudanças da biodiversidade no tempo e no espaço é o que torna os Pelds tão importantes para a produção científica brasileira”, destacou William Magnusson.

    Experimentos ecológicos

    O projeto busca incorporar as comunidades locais das áreas onde é desenvolvido, promovendo o engajamento por meio do envolvimento de ajudantes que conhecem e compreendem a região. Além disso, contribui para a produção científica no interior do Amazonas.

    Em 2024, foi conduzido um experimento com formigas para avaliar a atratividade do sódio. Os resultados foram transformados em artigos educativos que explicam o papel ecológico do sódio na nutrição mineral de espécies neotropicais, contribuindo para a popularização da ciência.

    Apoio da Fapeam

    O apoio da Fapeam é considerado essencial para a execução do Peld Psam. O financiamento viabiliza expedições de campo, integra pesquisas relacionadas à BR-319 e fortalece a presença científica em uma região historicamente pouco estudada.

    Além dos recursos, a flexibilidade administrativa da Fundação facilita a contratação de serviços locais e a inclusão da mão-de-obra regional, promovendo transferência de conhecimento e fortalecimento das comunidades envolvidas.

    Ao unir ciência de longo prazo, tecnologia, participação social e produção de dados estratégicos, o Peld Psam consolida-se como uma das principais iniciativas para compreender e proteger a biodiversidade do sudoeste da Amazônia em um momento decisivo para o futuro da região.

    Sobre o Peld

    O Peld tem o objetivo de apoiar financeiramente projetos de rede de sítios de pesquisa distribuídos nos diferentes biomas brasileiros, no desenvolvimento de projetos que abrangem estudos sobre efeitos de um amplo escopo, como, por exemplo: mudanças climáticas, perda, fragmentação e degradação de ambientes naturais, destruição de hábitats, super exploração, invasão de espécies, assim como ações de conservação e/ou restauração de ecossistemas nativos, tendo em vista a sustentabilidade ambiental.

  • Mudanças climáticas já afetam 85% dos brasileiros, diz pesquisa

    Mudanças climáticas já afetam 85% dos brasileiros, diz pesquisa

    Mudanças climáticas já afetam 85% dos brasileiros, diz pesquisa

    Oito em cada dez pessoas (85%) já notam interferências das mudanças climáticas em seu cotidiano, sendo que quase metade (46%) julga esse impacto intenso. O dado foi obtido por equipes do Aurora Lab e da More in Common, em pesquisa sobre a transição de energias sujas para limpas, obtida com exclusividade pela Agência Brasil e que será lançada na próxima quarta-feira (27), em São Paulo. 

    Como resultado das mudanças climáticas, as principais reclamações dos 2.630 participantes ouvidos foram: 

  • Ter que arcar com um custo maior de vida – 53%
  • Problemas de saúde física – 45%
  • Obstáculos ao acesso a seu local de trabalho – 40%
  • Adoecimento mental – 32%
  • Perda de renda – 17%
  • Perda de emprego – 10%
  • A proporção de brasileiros que confia que o governo deve ser a principal figura a garantir a proteção de trabalhadoras e trabalhadores nesse contexto é de sete a cada dez (67%). Outros indicados a essa função são empregadores (7%) e grupos auto-organizados, como os de direitos socioambientais (menos de 6%).

    A preferência pelo Estado como o agente mais adequado para apresentar soluções de mitigação e outras medidas pertinentes surpreendeu os pesquisadores.

    “Também é um dado muito preocupante, porque ele tira ou não coloca a responsabilidade em cima dos empregadores. Cada vez mais a gente vai ter eventos climáticos extremos e eles têm um papel muito importante em garantir a proteção dos trabalhadores no processo de transição também”, complementa a diretora-executiva do Aurora Lab, Gabriela Vuolo.

    O levantamento ainda demonstra elevada consciência (93%) de que os modelos de produção e consumo da sociedade precisam ser transformados para se enfrentar a crise climática. No total, 74% concordam totalmente com tal afirmação.

    Uma parcela de 67% acredita que essas mudanças trarão bons frutos para a classe trabalhadora, em termos de abertura de vagas. Somente 10% discordam disso e pensam que terão o efeito contrário, de redução dos postos de trabalho.

    As entrevistas também sondaram a avaliação das pessoas sobre a ligação entre a transição e a configuração social do país. A maioria (45%) acredita que a passagem para outros estágios energéticos promoverá redução das desigualdades sociais, contra 40% que acreditam que haverá uma manutenção ou, então, um aumento das desigualdades (23% acham que vão aumentar + 17% que não vão mudar).

    Segundo Gabriela Vuolo, parte dos respondentes imagina que até mesmo os salários poderão aumentar.

    De acordo com a pesquisa, mesmo em uma era de disseminação de fake news, os brasileiros ainda confiam no que a ciência diz. Universidades e cientistas são a fonte com mais credibilidade para 69% dos entrevistados, enquanto as redes sociais são o principal meio de informação de 65% deles, quando o assunto é clima.

    A pesquisa Clima, Trabalho e Transição Justa será compartilhada no encontro “Quem move o Brasil? Debates sobre Trabalho, Energia e Desenvolvimento”.

    As entrevistas realizadas para a análise contaram com a participação de pessoas com 16 anos de idade ou mais, de nove capitais: Belém, Brasília, Fortaleza, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. O questionário foi aplicado entre maio e setembro de 2025.

  • Países discutem solução para combustível fóssil e desmatamento ilegal

    Países discutem solução para combustível fóssil e desmatamento ilegal

    Países discutem solução para combustível fóssil e desmatamento ilegal

    As presidências da 30ª e da 31ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP) apresentaram, na Dinamarca, na última semana, a proposta preliminar para o Acelerador Global de Implementação Climática.

    A iniciativa lançada em novembro de 2025, em Belém, durante a COP30 sob a presidência do Brasil, prioriza ações com maior potencial, com capacidade de ganhar escala global e com mais velocidade de entrega de soluções de combate às mudanças do clima.

    Na prática, a intenção é transformar o debate de textos jurídicos em execução de soluções rápidas e reais na próxima conferência do clima, a ser promovida em conjunto com Turquia e Austrália (copresidentes da COP31), em Antália (Turquia), em novembro deste ano.

    A apresentação a representantes de cerca de 40 países deste diferencial estratégico, com maior pragmatismo econômico, ocorreu durante a reunião Ministerial do Clima de Copenhague, tradicionalmente realizada na capital dinamarquesa.

    O encontro de alto nível é o último antes das sessões de meio de ano da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, em Bonn, na Alemanha, preparatórias para as COPs.

    Integrante da delegação brasileira, a CEO da COP30, Ana Toni, explicou, que o Acelerador é um mecanismo cooperativo e voluntário com o maior potencial de desencadear e produzir efeitos em cadeia.

    “A proposta é acelerar soluções, como tecnologias, procedimentos e metodologias, incluídas em Planos de Aceleração de Soluções nas diferentes iniciativas e objetivos da Agenda de Ação”, disse Ana Toni.

    Mapas do Caminho

    Os chefes de delegação também debateram temas como os Mapas do Caminho (Roadmaps) da Presidência da CPO30 sobre combustíveis fósseis e desmatamento até 2030, como acordado na COP28, em Dubai, em 2023.

    Ao todo, a Presidência da COP30 recebeu 444 contribuições para os mapas do caminho internacionais sobre combustíveis fósseis e desmatamento, após consulta realizada entre fevereiro e abril.

    O presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, garante que são conhecidas as soluções científicas e de invenção de novas tecnologias necessárias para limitar o aquecimento global à meta mais segura do Acordo de Paris (1,5°C acima dos níveis pré-industriais), mas que o desafio da crise climática envolve financiamento e transferência de tecnologia que permitam aos países implementar essas mudanças a tempo.

    “A Presidência da COP30 está se esforçando para trazer as melhores informações para que os debates sobre desmatamento e combustíveis fósseis tenham o melhor embasamento possível. Assim, os caminhos que forem traçados serão viáveis e permitirão acelerar o combate à mudança do clima”, disse o diplomata André Corrêa do Lago.

    Durante os dois dias de sessões, também foram abordados temas como a implementação das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), o futuro do regime climático e adaptação aos impactos da mudança do clima.

    Autocrítica

    Sobre o chamado “regime climático”, que é o conjunto de regras, tratados e conferências internacionais que gerenciam a crise climática global, a diretora de Clima da Secretaria de Clima, Energia e Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores (MRE) do Brasil, a embaixadora Liliam Chagas, entende que há um movimento de amadurecimento dos países para que as negociações durante as COPs sejam mais focadas.

    A autocrítica dessas nações tem feito, de forma mais organizada, que estes países se concentrem em avançar, efetivamente em temas relativos à redução das emissões de gases de efeito estufa.

    “O regime está passando por uma fase de transição, da negociação, dos compromissos, para uma fase de implementação daquilo que já foi acordado”, destaca a embaixadora brasileira.

    A diretora ressalta que dez anos após o Acordo de Paris, adotado em 2015, durante a COP21, os países ainda mantêm e reforçam os compromissos de desenvolver políticas de combate à mudança do clima, planos nacionais de adaptação e de trabalhar para ter recursos financeiros globais que custeiem a transição para uma economia de baixo carbono.

  • Brasil registrou sete ondas de calor e seca extrema em diversas regiões em 2025

    Brasil registrou sete ondas de calor e seca extrema em diversas regiões em 2025

    Brasil registrou sete ondas de calor e seca extrema em diversas regiões em 2025

    Sinais da mudança climática estão cada vez mais presentes na América Latina e Caribe. A região registrou em 2025 temperaturas de calor de até 52,7°C, um furacão de categoria 5, ciclones tropicais, secas extremas e chuvas intensas.

    O relatório o Estado do Clima da América Latina e no Caribe, divulgado nesta segunda-feira, em Brasília, pela Organização Meteorológica Mundial, OMM, revela ainda que na costa atlântica da região, o nível do mar está subindo mais rápido que a média global.

    Temperaturas acima de 40 °C

    Houve calor recorde em toda a região, incluindo 52,7 °C em Mexicali, no México e múltiplas ondas de calor acima de 40 °C a 45 °C em toda a América Central.

    O Instituto Nacional de Meteorologia do Brasil, Inmet, informou que sete ondas de calor afetaram o país no ano passado. No estado do Rio Grande do Sul e em partes do Rio de Janeiro, as temperaturas ultrapassaram os 40 °C de janeiro até o início de março. Muitas escolas adiaram o retorno às aulas após os feriados.

    O verão de 2024 a 2025 foi o mais quente desde 1961 no Brasil.

    Seca incomum na Amazônia

    Secas intensas também afetaram diversas partes do país. A região amazônica teve estações secas mais longas e frequentes, especialmente no sul e no leste. As partes sul e oeste da bacia amazônica, bem como a região da Serra dos Parecis, registraram um volume total de precipitação inferior ao habitual.

    Durante o primeiro semestre de 2025, algumas dessas localidades apresentaram uma seca incomum, incluindo a região do Estuário Amazônico, o que prolongou as condições de estiagem do ano anterior.

    O nordeste e sudeste do Brasil também viveram seca extrema a moderada nas bacias dos rios Paraná e São Francisco.

    Abastecimento urbano sob pressão

    No primeiro semestre de 2025, condições de seca severa estenderam-se do Norte e Nordeste até os estados agrícolas centrais, incluindo São Paulo, Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.

    Os rios atingiram níveis extremamente baixos, o abastecimento urbano ficou sob pressão, e comunidades indígenas e rurais enfrentaram dificuldades devido ao acesso limitado à água potável e à queda nas colheitas.

    Grandes áreas do Planalto Brasileiro ficaram mais secas do que o normal, e a região circundante à Serra da Mantiqueira recebeu volumes de precipitação excepcionalmente baixos, de 10% a 20% abaixo do normal.

    Perda da pesca

    A América Latina e o Caribe também sofre com contínua acidificação e aquecimento dos oceanos, que estão agravando os riscos para os ecossistemas marinhos e as pescas.

    A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, afirmou que “os sinais de um clima em mudança são inconfundíveis em toda a América Latina e no Caribe, desde a aceleração da perda de geleiras e o aumento do nível do mar até ciclones tropicais que se intensificam rapidamente, calor extremo, enchentes e secas”.

    De acordo com ela, este relatório mostra que, embora os riscos estejam crescendo, também está aumentando a capacidade de antecipação e ação para salvar vidas e proteger meios de subsistência.

    Tornados e furacões

    Saulo declarou que isso foi exemplificado pelo furacão Melissa em outubro de 2025, o primeiro furacão de categoria 5 registrado na Jamaica. A tragédia resultou em 45 mortes e perdas econômicas de aproximadamente US$ 8,8 bilhões, mais de 41% do Produto Interno Bruto, PIB, jamaicano.

    Embora tenha sido um evento extremo sem precedentes, as autoridades locais usaram modelagem de risco de alta qualidade para informar medidas financeiras avançadas e preparação para desastres, o que limitou o custo humano e ajudou a ilha a lidar com a crise.

    Em 2025, o Brasil registrou dois tornados Tornados em Rio Bonito do Iguaçu, no sul do país, que causaram sete mortes e deixaram 1,5 mil casas danificadas.

    O relatório o Estado do Clima da América Latina e no Caribe  traz informações sobre os principais impactos e riscos climáticos, bem como os grandes eventos extremos regionais, incluindo ciclones, ondas de calor, chuvas intensas, secas e ondas de frio.

    Fonte: ONU NEWS

  • Estudo global vê contradição em política para carvão mineral no Brasil

    Estudo global vê contradição em política para carvão mineral no Brasil

    Estudo global vê contradição em política para carvão mineral no Brasil

    Pela primeira vez, o Brasil eliminou todas as propostas de novas usinas termelétricas a carvão mineral. Ao mesmo tempo, ampliou contratos e incentivos para manter em funcionamento empreendimentos já existentes até, pelo menos, 2040. 

    A contradição é apontada no relatório Boom and Bust 2026, da organização internacional Global Energy Monitor (GEM), que estuda a expansão do combustível fóssil pelo mundo.

    Segundo o relatório, a capacidade global de carvão cresceu 3,5% em 2025. O dado se refere ao volume total de energia que pode ser gerado pelas usinas. Por outro lado, a geração efetiva caiu 0,6%.

    O resultado indica distanciamento entre a capacidade de produção e a quantidade do mineral efetivamente utilizado.

    A China concentrou novos projetos e reativações, somando 161,7 gigawatt (GW) no ano passado. Já a Índia registrou 27,9 GW em novas propostas. Por outro lado, o número de países com projetos para criar usinas caiu de 38 para 32 no último ano.

    Em todo o mundo, quase 70% das unidades a carvão programadas para desativação em 2025 não foram desativadas, o que inclui 69% de desativações programadas na União Europeia e 59% nos Estados Unidos.

    Com a saída de Brasil e Honduras da lista de novos empreendimentos, a América Latina ficou sem projetos inéditos de usinas a carvão mineral em desenvolvimento.

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    Disputa em torno de usinas a carvão

    Em fevereiro de 2025, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) encerrou o licenciamento da usina Nova Seival, com potência de 726 megawatts (MW), nos municípios de Candiota e Hulha Negra, no Rio Grande do Sul.

    Em novembro, foi arquivado o processo da usina Ouro Negro, com potência prevista de 600 MW, em Pedras Altas (RS).

    Para Gregor Clark, gerente de projetos do Portal de Energia da América Latina do Global Energy Monitor, o futuro energético do país deveria ser pautado pelo abandono dos combustíveis fósseis.

    “Os impactos negativos do carvão mineral sobre o clima, a saúde e a economia são evidentes, e os custos são, em última análise, repassados aos consumidores brasileiros. Os abundantes recursos de energia renovável do Brasil oferecem um caminho muito mais seguro, acessível e sustentável”, diz Clark.

    Ainda assim, segundo o relatório, uma série de decisões recentes aponta para outra direção.

    Em 24 de novembro de 2025, um dia após o encerramento da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, a Câmara dos Deputados aprovou a Lei nº 15.269, que prorrogou até 2040 as compras obrigatórias de energia elétrica gerada por usinas a carvão.

    Ministro de Minas e Energia, no Leilão de Reserva de Capacidade, em março – Paulo Pinto/Agência Brasil

    Em janeiro de 2026, o governo federal contratou o Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, em Santa Catarina, até 2040, com custo anual estimado em R$ 1,8 bilhão.

    Em março, o Leilão de Reserva de Capacidade de 2026 (LRACP 2026) contratou 1,4 GW de capacidade de carvão importado para as usinas Itaqui, no Maranhão; e Pecém I e Pecém II, no Ceará.

    Em abril, o Ministério de Minas e Energia (MME) aprovou a renovação até 2040 do contrato da usina Candiota II, no Rio Grande do Sul, com custo anual estimado em R$ 859 milhões.

    A unidade enfrenta disputas judiciais e questionamentos ambientais. Segundo o relatório da GEM, a estimativa é de R$ 125 milhões em multas ambientais não pagas.

    O documento também cita decisão da Justiça Federal do Rio Grande do Sul, emitida em maio de 2026, que suspendeu a renovação da licença de operação de Candiota III em ação movida pelo Instituto Internacional Arayara.

    A decisão determinou que futuras autorizações dependam da análise dos impactos climáticos, das emissões de gases de efeito estufa e do passivo ambiental acumulado.

    O estudo afirma que a geração de energia a carvão no Brasil segue sustentada por contratos e subsídios embutidos nas tarifas de energia elétrica. Com a prorrogação aprovada em 2025, os custos acumulados podem superar R$ 100 bilhões até 2040.

    Para Juliano Bueno, diretor executivo do Instituto Arayara e fundador do Observatório do Carvão Mineral, é preciso considerar também os custos ampliados da escolha pelo combustível, que incluem danos à saúde pública e ao meio ambiente.

    “O Brasil está construindo um Mapa do Caminho rumo ao abismo climático com a inclusão do carvão mineral até 2055, conforme publicações do Plano Nacional de Transição Energética (Plante) do Ministério de Minas e Energia que está em processo de consulta pública”, diz Juliano.

    Transição energética

    Um estudo do Centre for Research on Energy and Clean Air (Crea) estima que o complexo carbonífero de Candiota possa causar até 1,3 mil mortes e gerar custos de saúde de R$ 11,7 bilhões até 2040. Os impactos atingiriam Argentina, Paraguai e Uruguai.

    O relatório também analisa a situação dos planos estaduais de transição energética justa e sustentável no Sul do país. O Paraná aparece como o único estado da região sem iniciativas concretas para áreas carboníferas, mesmo após o encerramento da Usina Termelétrica de Figueira, há três anos.

    No Rio Grande do Sul, uma consultoria foi contratada em março de 2024 para elaborar a estratégia estadual. O documento foi concluído em fevereiro deste ano, com estratégia de continuidade da mineração e da queima do carvão. Porém, até maio de 2026, o plano ainda não havia sido apresentado oficialmente.

    Santa Catarina realiza audiências públicas para discutir diretrizes do plano de transição com a comunidade e o setor produtivo.

    Posicionamento

    O Ministério de Minas e Energia tem defendido, reiteradamente, o uso do carvão mineral e de outros combustíveis fósseis (petróleo e gás natural) na matriz brasileira para garantir a segurança energética do país.

    Na realização do LRCAP 2026 em março deste ano, a contratação de potência de gás natural e carvão foi justificada como forma de trazer mais confiabilidade ao Sistema Interligado Nacional (SIN).

    Isso porque permitiria “potência adicional para atender à demanda em momentos críticos do sistema elétrico brasileiro, ampliando a flexibilidade”.

    A Agência Brasil entrou em contato com o Ministério do Minas e Energia e mantém espaço aberto para incluir um posicionamento do órgão sobre as conclusões do estudo.

  • MPF reforça pedido de anulação de licenciamento do Projeto Potássio Autazes no Amazonas por violação de direitos

    MPF reforça pedido de anulação de licenciamento do Projeto Potássio Autazes no Amazonas por violação de direitos

    MPF reforça pedido de anulação de licenciamento do Projeto Potássio Autazes no Amazonas por violação de direitos

    O Ministério Público Federal (MPF) reforçou o pedido de anulação das licenças concedidas para o Projeto Potássio Autazes, no Amazonas. Em manifestação enviada à Justiça Federal, o MPF pede o reconhecimento da competência exclusiva do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para conduzir o licenciamento ambiental do projeto, além da suspensão imediata de atividades de pesquisa e exploração mineral da região. A manifestação traz histórico dos acontecimentos e violações dos últimos 10 anos no caso.

    De acordo com o documento, o licenciamento conduzido pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) é invalido pois a atividade afeta diretamente terras indígenas, que são de propriedade da União. O MPF ainda aponta que o empreendimento está localizado a apenas 2,52 quilômetros da aldeia Soares e faz limite com a Terra Indígena Jauary, impactando o território tradicional do povo Mura.

    Além disso, a manifestação destaca que foram violados os direitos de consulta livre, prévia e informada às comunidades indígenas afetadas, conforme prevê a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Segundo o MPF, as reuniões com os indígenas foram feitas de forma tardia, após a concessão da Licença Prévia pelo órgão estadual.

    O órgão também relata que houve episódios de interferência e pressão por parte da mineradora dentro das aldeias para obter a concordância dos indígenas, o que invalida o processo de escuta.

    Ação – A manifestação (alegações finais) foi em ação civil pública ajuizada pelo MPF em 2016 contra a empresa Potássio do Brasil, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) e outros órgãos envolvidos no processo de licenciamento do empreendimento minerário em Autazes.

    Na ação, o MPF questiona a legalidade do licenciamento ambiental conduzido pelo estado do Amazonas e pede a suspensão do projeto até que as determinações sejam cumpridas.

    Em maio de 2024, o MPF entrou com outra ação pedindo que a Justiça suspendesse a licença de instalação da Potássio do Brasil que foi concedida, mas não houve decisão da Justiça Federal até o momento.

    Nesse contexto, em agosto de 2025, o MPF apresentou novo pedido de suspensão das licenças para o projeto. Na ocasião, o órgão apresentou novos laudos periciais antropológicos e ambientais, nas áreas de geologia, engenharia florestal e biologia. Os laudos, finalizados no segundo semestre de 2024, demonstraram um cenário de irregularidades e graves defeitos no procedimento, nos estudos ambientais e no respeito aos direitos dos povos afetados.

    Íntegra da manifestação do MPF com histórico dos acontecimentos dos últimos 10 anos no caso

    Linha do tempo sobre o caso e outras informações

    A Ação Civil Pública nº 0019192-92.2016.4.01.3200 tramita na 1ª Vara da Justiça Federal no Amazonas

  • Como uma escola no interior do Amazonas transformou a floresta em ferramenta de ensino

    Como uma escola no interior do Amazonas transformou a floresta em ferramenta de ensino

    Como uma escola no interior do Amazonas transformou a floresta em ferramenta de ensino

    Enquanto boa parte das escolas brasileiras ainda separa ensino e território, uma escola no interior do Amazonas vem construindo o caminho contrário. Na comunidade Igapó-Açu, às margens da BR-319, a floresta, o rio, as brincadeiras e os saberes tradicionais ocupam cada vez mais a centralidade dentro da sala de aula.

    Tais práticas, já presentes no cotidiano escolar, foram fortalecidas e valorizadas durante o 2º Encontro de Formação Pedagogia da Floresta, realizado pela Casa do Rio com financiamento da Katia Francesconi Foundation, responsável pelo apoio integral à iniciativa.

    A formação ocorreu entre os dias 16 e 18 de abril de 2026, na Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental, que funciona dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Igapó-Açu, no município de Manicoré, a 260 quilômetros de Manaus. A ação deu continuidade ao trabalho iniciado em 2023, quando a primeira edição do encontro reuniu mais de 300 professores da rede municipal de ensino.

    Desta vez, o foco esteve na própria escola e durante três dias, professores, gestores, auxiliares, merendeiras, comunitários e parceiros participaram de atividades construídas a partir das vivências do território. Ao todo, 21 participantes integraram a formação, conduzida por cinco consultoras.

    Pedagogia da Floresta
    Para Lia Mandelsberg, coordenadora do projeto, a segunda edição representa um amadurecimento da forma como a Casa do Rio trabalha a Pedagogia da Floresta junto aos educadores e à educação pública.

    “Enquanto a primeira edição alcançou uma ampla rede de escolas e atuou em diferentes frentes, o segundo aprofundou o trabalho dentro de uma única escola, localizada em uma área de conservação ambiental e que já possui longo histórico de parceria com a instituição”, explicou.

    Pedagogia da Floresta é uma metodologia que compreende a floresta como espaço de produção de conhecimento, cultura e convivência. Nesse contexto, aprender não se limita à sala de aula. O conhecimento também está nos modos de plantar, pescar, colher, cozinhar, brincar, cuidar e viver em comunidade.

    Esse modo de ensinar e aprender já faz parte da realidade da escola desde 2017, quando a Casa do Rio contribuiu para a construção da escola, pensando o espaço e as práticas em diálogo direto com os modos de vida da comunidade.

    “A formação foi construída a partir de um planejamento participativo intenso, pensado para dialogar com as principais necessidades da Escola Igapó-Açu. E a Pedagogia da Floresta parte justamente desse princípio: valorizar os saberes locais e a vida construída com, para e da floresta”, detalhou Lia.

    Práticas pedagógicas e brincadeiras
    As atividades reuniram práticas artísticas, corporais, lúdicas e conceituais, em um processo que alternou teoria e prática e dialogou com os ritmos da floresta, das águas e da vida amazônida.

    As metodologias foram conduzidas pelas consultoras Carla do Carmo, Ceane Simões, Annie Martins e Renata Peixe-Boi. Entre os conteúdos trabalhados estiveram a Pedagogia da Onça Pintada, práticas inspiradas no Teatro do Oprimido e atividades voltadas à compreensão das infâncias e das identidades construídas no território.

    A consultora Annie Martins destacou que a experiência ampliou reflexões sobre educação e pertencimento dentro da floresta amazônica.

    “Como mulher, mãe e indígena Tikuna em retomada, vivenciar e estimular trocas sobre uma educação mais sensível foi profundamente transformador. Nesse contexto, o Teatro do Oprimido entrou como metodologia para potencializar práticas que professoras, professores e estudantes do Igapó já desenvolvem, mas agora com mais consciência” afirmou Annie, que é docente de Teatro na Universidade do Estado do Amazonas.

    “Com os jogos teatrais, redescobrimos nosso corpo-bicho, corpo-rio, corpo-território, impregnado pela floresta e pelo modo de viver no Igapó. O Teatro do Oprimido potencializou retomadas indígenas, costumes ancestrais e escutas sensíveis”, completou.

    Além das práticas pedagógicas, o encontro promoveu brincadeiras, vivências e atividades de memória das infâncias. Na comunidade, brincar faz parte do aprendizado. Pular n’água, remar, subir em árvores, brincar com sementes e reconhecer plantas, bichos e caminhos do rio integram o cotidiano das crianças e ajudam a construir formas de aprender ligadas à floresta.

    Com isso, a formação promoveu a integração entre escola, comunidade e saberes tradicionais, aproximando o currículo escolar das experiências vividas pelos moradores.

    Alimentação, cuidado e apoio
    O encontro também abordou alimentação, cuidado e cultura alimentar amazônica. A Cozinha Boca da Mata, conduzida pela consultora Renata Peixe-Boi, encerrou a programação com uma atividade voltada ao preparo de alimentos com ingredientes locais e sem uso de agrotóxicos, dentro da realidade da escola. A participação das merendeiras reforçou o entendimento de que o cuidado e a alimentação também fazem parte dos processos educativos.

    “O envolvimento de toda a equipe escolar no processo formativo reconhece que todas as pessoas da escola participam da formação das crianças e que cada função tem importância na educação”, enfatizou Lia.

    “Vale destacar que o apoio de Katia Francesconi Foundation tem sido fundamental para a continuidade do trabalho, possibilitando que a formação aconteça de forma aprofundada, fortalecendo práticas já existentes na comunidade”, pontuou.

    Em Igapó-Açu, onde crianças aprendem entre rios, árvores e saberes compartilhados entre gerações, a experiência aproxima escola e território para que o aprendizado permaneça vivo nas práticas cotidianas, nas memórias da comunidade e perpetue para as próximas gerações.

    “Se o primeiro encontro expandiu em quantidade, o segundo cresceu como árvore: para baixo, fortalecendo as próprias raízes”, concluiu Lia Mandelsberg.

  • Após mais de um século sem registros, periquito-cara-suja volta a se reproduzir na Serra da Ibiapaba, divisa entre Ceará e Piauí

    Após mais de um século sem registros, periquito-cara-suja volta a se reproduzir na Serra da Ibiapaba, divisa entre Ceará e Piauí

    Após mais de um século sem registros, periquito-cara-suja volta a se reproduzir na Serra da Ibiapaba, divisa entre Ceará e Piauí

    Parque Nacional de Ubajara (CE) registrou neste ano, 2026, o nascimento de 43 filhotes de periquito-cara-suja (Pyrrhura griseipectus), uma das aves mais raras e ameaçadas do Brasil. O resultado marca um avanço histórico na conservação da espécie e simboliza seu retorno à Serra da Ibiapaba, na divisa dos estados do Ceará e do Piauí, após mais de um século sem registros na região. 

    O feito é resultado direto de um projeto de reintrodução específico para a espécie na unidade de conservação, executado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) por meio do Parque Nacional do Ubajara e do Centro Nacional de Conservação de Aves (Cemave), junto à organização não governamental Aquasis. 

    A iniciativa integra o conjunto de ações do Plano de Ação Nacional para a Conservação das Aves da Caatinga (PAN Aves da Caatinga), instrumento estratégico que orienta e articula esforços em nível nacional para a proteção de espécies ameaçadas e seus habitats no bioma Caatinga. 

    O projeto vem sendo desenvolvido com base em técnicas modernas de manejo e conservação, envolvendo etapas como translocação de indivíduos de vida livre, ambientação em recintos controlados, soltura branda, monitoramento contínuo dos indivíduos reintroduzidos e instalação de caixas-ninho para estímulo à reprodução. 

    Segundo a equipe técnica envolvida, o nascimento dos filhotes indica que a espécie não apenas conseguiu se adaptar ao ambiente, mas já apresenta sinais consistentes de estabelecimento de uma população reprodutiva na região. 

    Mais do que um resultado numérico, o registro representa a retomada de um processo ecológico interrompido há décadas. A ausência histórica da espécie na Serra da Ibiapaba estava associada principalmente à perda de habitat e à captura ilegal de aves silvestres — fatores que ainda representam desafios para sua conservação. 

    Pyrrhura griseipectus depende diretamente de ambientes florestais bem preservados. Nesse contexto, o Parque Nacional de Ubajara desempenha papel estratégico, funcionando como área-chave para a proteção da biodiversidade e para a recuperação de espécies ameaçadas. 

    Para o chefe da unidade, Diego Rodrigues, o resultado reforça a importância de políticas públicas ambientais aliadas a parcerias institucionais. Segundo ele, a atuação conjunta com organizações especializadas e centros de pesquisa tem sido fundamental para o sucesso das ações de conservação e reintrodução da espécie. 

    Apesar dos avanços, especialistas destacam que a espécie ainda requer acompanhamento contínuo. A manutenção das ações de translocação para reforço populacional, monitoramento, proteção e engajamento social serão essenciais para garantir a consolidação da população reintroduzida ao longo dos próximos anos e assegurar a permanência da espécie na região. 

    Sobre o Parque Nacional de Ubajara 

    Localizado no noroeste do Ceará, o Parque Nacional de Ubajara é uma unidade de conservação federal que protege importantes remanescentes de biodiversidade da região, incluindo áreas de mata úmida, cavernas e recursos hídricos estratégicos. A unidade também se destaca pelo desenvolvimento de ações voltadas à conservação da fauna e flora, pesquisa científica, educação ambiental e uso público sustentável.  

    Em 2025, o parque recebeu cerca de 240 mil visitantes, figurando entre os dez parques nacionais mais visitados no período.

  • Projeto mapeia fauna marinha da Bahia por meio do DNA ambiental

    Projeto mapeia fauna marinha da Bahia por meio do DNA ambiental

    Projeto mapeia fauna marinha da Bahia por meio do DNA ambiental

    Uma nova etapa do projeto Genômica da Biodiversidade Brasileira (GBB), desenvolvido pelo Instituto Tecnológico da Vale (ITV), busca identificar espécies da fauna marinha a partir de amostras de água que são coletadas em reservas do sul da Bahia. A coordenação é do Centro Tamar, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em parceria com as reservas extrativistas (Resex) de Corumbau e Cassurubá.

    Para esse trabalho, os pesquisadores utilizam uma nova técnica, mais moderna, chamada de DNA Ambiental metabarcoding, que permite a identificação de múltiplas espécies simultaneamente, a partir de amostras ambientais que são colhidas, por exemplo, na água.

    Segundo a coordenadora do GBB pelo ICMBio, Amely Branquinho Martins, a técnica de DNA Ambiental se baseia na coleta de amostras ambientais do solo, da água e do ar e na identificação de todas as espécies que passaram por aquele ambiente a partir do sequenciamento do DNA deixado na amostra.

    “Todo animal que passa por um ambiente deixa pedacinhos de pelo, de escama, de fezes ou de urina que contém o seu DNA. Vários animais passando por aquele ambiente vão deixando rastros de sua passagem e, dentro desse rastro, temos as moléculas de DNA. Quando a gente pega essa amostra, sequenciamos todo o DNA [dessa amostra] e o comparamos com os bancos de dados de referência. E, a partir daí, conseguimos identificar as espécies”, detalhou a coordenadora do GBB.

    Segundo Amely, essa técnica já vem sendo utilizada por outros países e agora o GBB pretende analisar a sua eficácia, em comparação aos métodos tradicionais, para o monitoramento de tipos da biodiversidade nas unidades de conservação federais.

    No projeto-piloto que vem sendo desenvolvido no sul da Bahia foram coletadas amostras de água do mar em 20 pontos diferentes da Reserva Extrativista de Corumbau e em dez pontos nas porções estuarina e marinha da Reserva Extrativista de Cassurubá.

    “A definição destes pontos pelas equipes envolvidas considerou as espécies de interesse e os locais de realização das atividades de pesca e extrativismo pelos beneficiários das RESEXs, as áreas relevantes para conservação das espécies ameaçadas, e a possível ocorrência de espécies exóticas invasoras”, explicou o analista ambiental do ICMBio Roberto Sforza.

    As amostras foram coletadas no mês de março e já passaram por um processo de filtragem e conservação até serem transportadas para o laboratório do ITV, em Belém (PA), onde o DNA será extraído, analisado e sequenciado.

    Além de identificar os tipos da fauna marinha presentes nessa região, a iniciativa quer contribuir para a detecção de espécies ameaçadas, exóticas e invasoras presentes nessas áreas protegidas.

    Entre os animais que se pretende mapear nesta região estão os peixes e invertebrados de interesse social e econômico das populações beneficiárias das RESEXs, com especial atenção para espécies ameaçadas de extinção, como os budiões.

    Segundo Sforza, também devem ser mapeados animais que são os principais alvos de pescaria como peixes recifais, camarões, moluscos e caranguejo-uçá, como também espécies exóticas invasoras, como o peixe-leão e o coral sol.

    DNA Ambiental

    Uma das vantagens da utilização do DNA Ambiental é que ele permite a identificação de múltiplas espécies de forma simultânea, sem a necessidade da captura dos organismos.

    “Por não necessitar isolar e capturar os organismos, essa abordagem é considerada uma alternativa não invasiva para estudos de biodiversidade. O eDNA metabarcoding também tem se mostrado complementar aos métodos tradicionais de identificação de espécies, em alguns casos superando limitações destes e permitindo o registro de espécies raras ou de hábitos elusivos, requerendo menos esforço e tempo para a obtenção das amostras”, disse Sforza.

    Para isso, é preciso apenas amostras ambientais, que podem ser retiradas da água, do solo e do ar, por exemplo. “O DNA ambiental é muito variável. Praticamente, tudo que você vê num ambiente, como folha, solo, tronco e ar, tem como coletar [o DNA]”, afirmou o pesquisador e coordenador do GBB pelo Instituto Tecnológico Vale (ITV), Alexandre Aleixo.

    “Você não precisa ter nenhum conhecimento específico para coletar, além de realmente seguir um protocolo. A gente coloca luvas, máscaras e saímos com um tubo na mão, coletando água nos rios e igarapés, mas também no solo, com pinça. Também há equipamentos especiais que sugam o ar”, disse Aleixo.

    “Outra técnica conhecida é a do filme Jurassic Park, [de retirar o] genoma do dinossauro dentro da barriga de um mosquito. A gente também faz isso, só que não com dinossauros”, brincou. “Pegamos mosquitos e, a partir do sangue que foi ingerido por eles, é possível identificar e saber se eles estão com o sangue de anta ou de capivara, por exemplo”, explica.

    Esse trabalho se torna possível porque todo ser vivo deixa rastros de DNA no ambiente. “Não são só os vírus que se espalham quando a gente espirra ou urina, mas também o DNA vai junto. A gente está o tempo todo emitindo partículas de DNA que vão para o ambiente. E estando no ambiente, podemos capturá-lo, isolá-lo e sequenciá-lo”, explicou o coordenador do GBB.

    Nessas amostras coletadas nas águas do sul da Bahia, por exemplo, os pesquisadores poderão determinar quais espécies estão presentes nesse ambiente. Inclusive, animais que são de difícil detecção por terem hábitos noturnos ou serem raras. “O DNA ambiental encurta um pouco o caminho para a detecção dessas espécies”, completou Aleixo.

    GBB

    Em funcionamento desde 2023, o GBB é a maior iniciativa de sequenciamento genômico da biodiversidade já realizada no Brasil. O projeto tem o objetivo de gerar dados genéticos e genômicos de espécies de fauna e flora ameaçadas de extinção, exóticas, endêmicas ou de interesse econômico, com potencial para gerar renda para agricultores envolvidos com projetos de bioeconomia, por exemplo.

    A ideia é realizar esse mapeamento para apoiar a conservação e o uso sustentável da biodiversidade brasileira.

    “Ao conhecer todo o mapa genético de uma espécie, conseguimos, a partir dali, desenvolver aplicações seja para a conservação seja para [o desenvolvimento] de novos produtos”, explicou Aleixo.

    Segundo Amely, o GBB trabalha atualmente com dois eixos principais, um de genômica para conservação de espécies e outro de código de barras, que trabalha com a geração de marcadores genéticos e com o DNA Ambiental metabarcoding. “Até o momento, mais de 40 genomas de referência foram gerados e esperamos que, até o final do projeto, tenhamos pelo menos 80 espécies da biodiversidade brasileira, com foco principal em espécies ameaçadas”, disse a coordenadora.

    “Dentro dos genomas mais informativos, que são os de referência, a gente já gerou [o mapeamento] da onça, da arara-azul, da anta, da ararajuba, do queixada e do próprio açaí”, destacou Aleixo.

    Além dos genomas de referência, explicou Amely, também já foram sequenciadas 613 espécies para o código de barras e 479 amostras ambientais por meio do DNA Ambiental, sendo que cada amostra ambiental pode identificar uma diversidade de animal.

    “O foco principal é a utilização desses dados de genética e genômica para atender ou subsidiar processos institucionais do ICMBio voltados para a conservação da biodiversidade”, destacou Amely. Segundo ela, a utilização do DNA Ambiental pelo GBB busca também testar o uso dessa técnica para o Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade (Programa Monitora).

    Mudanças climáticas

    Além da importância para a conservação das espécies, os genomas podem contribuir para o melhoramento genético.

    “O genoma é uma cápsula do tempo. Então, a partir do genoma eu consigo saber de onde um determinado indivíduo veio e se ele veio de uma população que era geneticamente diversificada ou não”, afirmou Aleixo.

    Com essa informação, esclareceu o pesquisador do ITV, seria possível, inclusive, entender como as espécies lidaram com as mudanças climáticas ocorridas ao longo da história. E, assim, oferecer bases para o futuro.

    “A gente sabe que, por exemplo, há 20 mil anos teve a Era do Gelo, que também aconteceu no Brasil, mas de outra forma. São mudanças climáticas bastante significativas que impactaram o planeta todo. Queremos entender, via genoma, sobre o que aconteceu, quais populações sofreram, quais populações se adaptaram e por que se adaptaram. Será que essa adaptação que aconteceu no passado poderia ser usada para adaptar para as mudanças climáticas futuras? Nosso único guia é a cápsula do tempo do genoma”, disse Aleixo.

    Segundo ele, isso já vem sendo feito em outros países do mundo. Na Europa, por exemplo, eles desenvolvem uma iniciativa chamada de resgate evolutivo com plantas.

    “Eles identificam partes dos genomas que são adaptativos e vão conferir, por exemplo, sobre uma resistência à seca e entender aonde que isso está no genoma. E daí pode-se até mesmo propiciar cruzamentos para que indivíduos que tenham essas características espalhem isso para a espécie como um todo.”

    Depois de ser desenvolvido no bioma amazônico e estar centrado nos ecossistemas marinho-costeiros, no futuro os pesquisadores do GBB pretendem executar ações nos demais biomas brasileiros como Cerrado, Caatinga, Pampa e Pantanal. 

    O resultado do projeto pode ser acessado por meio da plataforma GenRefBR.

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